a mãe que consigo ser

Na velha Raposo (Tavares) de sempre. Gabriel, no carro, narrando um pesadelo. – A gente estava na escola, brincando. Daí chegou um homem, roubou o brinquedo do Chico (o irmão caçula). Depois, mãe, você ofereceu carona pra ele. Aí quando entramos no carro, e ele jogou a gente pra fora. Roubou a gente. – E você viu que ele tinha feito tudo isso? Por que não me avisou que o homem era assim? – Porque eu fiquei sem voz. E eu, abismada. Foi um sonho muito forte. Refleti sobre seu sentimento, essa sensação declarada de que o adulto responsável (no caso, eu), não conseguia identificar o perigo iminente. “Será que é assim que ele me vê?”- pensei. “Tão distraída, no mundo da lua, a ponto de não conseguir protegê-lo?” Culpa é um bicho...

o que tem pra hoje

Foi o pulmão que cresceu pra deixar entrar mais ar ou o coração que aumentou pra dar conta de tanto? (difícil é caber tudo sem doer.)

o fim

Eram apenas dois olhos vertendo, vertendo, vertendo… Sentiu seus braços se erguendo em prece, e todos os seus espinhos saindo, lentamente,  do centro do peito em direção à superfície. Sua pele, enfim, enrijeceu, a antiga ardência nas plantas dos pés deu passagem a pequenas raízes, e a água que era antes jorrava agora também provinha da terra.   Olhou adiante e não mais viu o deserto, apenas uma enorme pradaria sedenta por novo saber.   Olhou além do horizonte e perdeu-se, enfim, de seu próprio mirar   Ergueu-se entre nuvens frescas e viu, lá de cima, pela última vez, um único cacto remanescente sombreando a aridez, futuro remanso para outros errantes fatigados.   Despediu-se do antigo invólucro, sorriu em gratidão, engendrou...

um fim

Num dia de mais caminhar errante deixando, ao sul, um rastro de fio sangrado dos pés, um vento bateu no já sempre ar cáustico.   Que era esse sopro? – sussurou-lhe à morada, depois deslocou com leveza o eixo do mapa de suas miragens livrou-lhe a areia dos olhos, arranhou-lhe a fina casca das tantas feridas, revelou a represa.   Então Lauren ficou ali, lavrando um vasto mundo de infinitas perdas. Lavando a poeira de tantos desertos caminhados banhando-se de água salgada, ai, doce acalanto que brota dos cantos de si.   Passou ali algumas eras era muitas, e tantas dela levavam às costas flores vincadas na carne. Da miragem, nada restava. Da promessa, apenas a seca visão de mais pesadelos de sangue e torpor.   Então decidiu:...

vereda da promessa

A flor da pele é feita por fios brotados de fendas conta casos de dessassossego desmedidas deseducadas vermelhas pétalas desamparadas em terra seca e bruta  surgidas em pés de quem caminha em desertos (crendo, ainda, nos oásis gramados mesmo que em outras eras) Arremedo de flor cheirosa, caminho traçado por espinhos arando aridez Esperança de rosa de terra fofa e cuidada, única promessa de quem escala tantas pontas.      ...

a sombra de todos os medos

– Mãe, tô com medo. – Do que, Chico? – Da folha!   Foram dias assim. Não adiantava perguntar que folha era aquela. Muito menos dizer que folha não mete medo, não se faz isso com o imaginário de uma criança. Eu, que tinha medo até do triângulo das bermudas, medo de que meu pai fosse sequestrado por extraterrestres, medo de areia movediça, medo de trocar de dentes, medo de Gremlin, medo do Nada (da História sem Fim), de cão raivoso no mês de agosto, de todas as doenças que o Fantástico anunciava, medo de tanta coisa absurda que não caberia aqui dizer, era a última pessoa com direitos a pedir por um mínino de explicação do por que o Francisco tinha medo de algo tão insignificante como uma folha. Mas e aí, o que fazer? Comecei a perceber que...

há que se cuidar

Há que se cuidar do broto pra que a vida nos dê flor e fruto. Três brotinhos: esse foi o templo que a vida me concedeu nos últimos tempos. Parei. Tive que parar tanta coisa. Tive que começar tanta coisa… A cada um que chegava, rever minha própria chegança. Porque há que se tomar tempo pro tempo de cria. Há também que se ter alma lúcida. Há que muita coisa. Mas também há o que está além do “há que”. Para além do “avental todo sujo de ovo”, comerciais de mamãe-bebê, cartilhas de mãe moderna, todo e qualquer modelo do que ser mãe significa e se ressignifica ao longo de todos os tempos, essa parte da música do Milton trouxe, de repente, de forma linda e sintética, a noção do que é esse ofício: um imenso laboratório alquímico. Ou, se preferir, a figueira debaixo...

gabrielices

(Gabri chorando) – Que foi, filho? – Eu só tenho duas mãos! – E daí? Todo mundo tem duas mãos. – Mas eu quero fazer cinco coisas! E eu não tenho cinco mãos! (…)   – Mãe, pega um suco? (pego) – Não vai falar obrigado? – Obrigado… (1 segundo depois) Não vai falar de nada?

A princesa e o pescador

Lenora, uma princesa encantada, linda e formosa, já havia recebido a visita de inúmeros pretendentes. Os mais corajosos traziam-lhe objetos exóticos de lugares distantes, os mais líricos criavam versos de amor incomparáveis, aqueles mais impetuosos lhe ofereciam jóias jamais sonhadas, com pedras puríssimas trazidas de minas profundas. Porém tudo para ela era inútil. Os presentes que conseguiam entrar pelos portões do palácio transformavam-se em pedra bruta, da mais comum, na melhor das hipóteses. Palavras amáveis e lindas canções soavam como ofensas e guinchos, provocando um terror jamais visto, sobrepondo-se ao esplendor da princesa. Era essa a maldição do palácio, lançada há muitos e muitos anos por um velho feiticeiro que se sentira desprezado por Lenora:...