o fim

Eram apenas dois olhos vertendo, vertendo, vertendo… Sentiu seus braços se erguendo em prece, e todos os seus espinhos saindo, lentamente,  do centro do peito em direção à superfície. Sua pele, enfim, enrijeceu, a antiga ardência nas plantas dos pés deu passagem a pequenas raízes, e a água que era antes jorrava agora também provinha da terra.   Olhou adiante e não mais viu o deserto, apenas uma enorme pradaria sedenta por novo saber.   Olhou além do horizonte e perdeu-se, enfim, de seu próprio mirar   Ergueu-se entre nuvens frescas e viu, lá de cima, pela última vez, um único cacto remanescente sombreando a aridez, futuro remanso para outros errantes fatigados.   Despediu-se do antigo invólucro, sorriu em gratidão, engendrou...

um fim

Num dia de mais caminhar errante deixando, ao sul, um rastro de fio sangrado dos pés, um vento bateu no já sempre ar cáustico.   Que era esse sopro? – sussurou-lhe à morada, depois deslocou com leveza o eixo do mapa de suas miragens livrou-lhe a areia dos olhos, arranhou-lhe a fina casca das tantas feridas, revelou a represa.   Então Lauren ficou ali, lavrando um vasto mundo de infinitas perdas. Lavando a poeira de tantos desertos caminhados banhando-se de água salgada, ai, doce acalanto que brota dos cantos de si.   Passou ali algumas eras era muitas, e tantas dela levavam às costas flores vincadas na carne. Da miragem, nada restava. Da promessa, apenas a seca visão de mais pesadelos de sangue e torpor.   Então decidiu:...

vereda da promessa

A flor da pele é feita por fios brotados de fendas conta casos de dessassossego desmedidas deseducadas vermelhas pétalas desamparadas em terra seca e bruta  surgidas em pés de quem caminha em desertos (crendo, ainda, nos oásis gramados mesmo que em outras eras) Arremedo de flor cheirosa, caminho traçado por espinhos arando aridez Esperança de rosa de terra fofa e cuidada, única promessa de quem escala tantas pontas.      ...

a grande batalha

A partir de hoje, no parir de hoje, limpo minha casa, meus pés, minhas mãos, minha alma, meu espírito, minha história, da sua presença. da sua influência. da sua EXISTÊNCIA.   Não mais te comporto em meu corpo, não mais te suporto em minhas costas, nas minhas raízes, não mais te carrego em minhas dores, coceiras, ardores.   Você, que assombrava minha história há tempos. que habitava em meus pesadelos. que aterrorizava meus caminhos.   Hoje te vi, e também te persegui. te peguei. te flagrei na sua fragilidade. vi seu verdadeiro tamanho. vi o peso da tua capa, o porquê da tua covardia. vi seu desespero para o qual a resposta é única: a violência. vi, percebi, quase caí. Mas não me submeti. dei voz à dignidade que me habita. dei voz à nova forma que...

Lauren e o Diabo na Terra sem sol

Ela, a que vem sangrando Encontra com ele, marchando. Lauren, que tem pés no mangue. Mas sem raiz, e de caule fraco, ancora tentáculos ao ar, tentando resgatar alimento. Agarra, faminta, múltipla de braços, carente de todo o resto. Ele, inflexível, casca dura, rosto impassível. Ela pergunta-lhe o nome. Ele nada lhe dá. Lauren suplica-lhe algo, e ele percebe que ali há comando. Então ele fica, liderando seu pequeno exército de uma só, e só o que dela resta. Ela ancora-se ao léu, porque ele não se deixa agarrar. Mas ele deixa um dedinho no céu, como uma isca no ar,   como bússola macabra condicionando o andar   Lauren joga no chão migalhas pra ela mesma catar. Porque ele nada lhe dá e ela tudo quer pegar.   Então…   Erram pelo deserto...

um pouco mais sobre Lauren

ela já falou por mim algumas vezes. agora, falo por ela. o texto ainda será épico. daqui a pouco darei voz à moça, quando me cansar desse pequeno poder dramatúrgico. tenho um pouco de medo dela, confesso. por isso, tô liberando aos poucos. um pouco mais sobre Lauren: – sabe “Atrás da Porta”, do Sr. Buarque? ela não escuta, ela vive. – usa com propriedade as seguintes palavras: nunca mais. (em começo ou fim de frases) – se fumasse, teria uma piteira. – se fosse fatal, seria Lauren Bacall. – ainda sem sobrenome. aliás, não tem nem nome. Lauren é pseudônimo de alguém que ela não sabe quem.