A princesa e o pescador

Lenora, uma princesa encantada, linda e formosa, já havia recebido a visita de inúmeros pretendentes. Os mais corajosos traziam-lhe objetos exóticos de lugares distantes, os mais líricos criavam versos de amor incomparáveis, aqueles mais impetuosos lhe ofereciam jóias jamais sonhadas, com pedras puríssimas trazidas de minas profundas. Porém tudo para ela era inútil. Os presentes que conseguiam entrar pelos portões do palácio transformavam-se em pedra bruta, da mais comum, na melhor das hipóteses. Palavras amáveis e lindas canções soavam como ofensas e guinchos, provocando um terror jamais visto, sobrepondo-se ao esplendor da princesa. Era essa a maldição do palácio, lançada há muitos e muitos anos por um velho feiticeiro que se sentira desprezado por Lenora:...

tempos de áries

  muita mudança no céu: estrelas mutantes convocam ações. sistemas solares despencam. sistemas de falsos sóis.   o tom da nota é: verdade. outono pede só essência. fica só o que alimenta. tirar cascas sérias, sair das casas velhas, voltar pro centro, morrer, e só depois florescer.   só peço a essas constelações verdadeiras que mandem de lá o sentido. e a justa ajuda para o reajuste na medida do meu merecimento mas no tamanho da minha...

a parede debaixo da estante

Hoje ela tentou cruzar os mundos. Deu com a parede. A mesma parede que havia debaixo da estante do seu quarto, quando criança. Debaixo de uma prateleira branca de três estantes onde pousavam porta-jóias, bichos de pelúcia e pequenos enfeites. A última prateleira ainda ficava alta em relação ao chão, e formava com as bases laterais um perfeito quadrado vazio. Naquele vão, ali embaixo, havia uma promessa. Era um portal perfeito demais para que de lá nada saísse. Ela bem que esperava que do nada abrisse uma porta, do nada surgissem seres. Morreria de susto, é verdade, mas então não seria mentira aquele lugar que mandava sinais há tanto tempo. Mas com os olhos de sempre, ela não viu, nunca viu, como jamais veria. Sua escola não ensinava ver além. Agora, novamente, a...

crônicas da bússola azul – segunda viagem ao sul

e a mulher girou e novamente caiu no descampado celeste. era noite, e havia ainda o fogo. e havia ainda a menina. e ela lhe apontou as estrelas. eram muitas. e disse que era bom esperar. era uma espera preenchida. então a mulher viu  que era ela, e não a menina, quem havia se perdido. que a imagem desolada do primeiro encontro era pura projeção da parte crescida. e como quem diz que é verdadeiro seu mundo, ela a levou a sua aldeia. um lugar de casas entre clareiras, onde muitas outras crianças brincavam. um lugar entre as árvores, que certa vez, a mulher lembrou, há muito tempo, havia desenhado – numa tarefa de escola, cujo título era “minha cidade”. sua cidade era de casas entre árvores, abaixo e no alto dos galhos, casas conectadas por...

crônicas da bússola azul: primeira viagem ao sul

… e da mata ela nada mais sabia. mas não era esquecimento, porque de algum lugar ainda lembrava. sentia o cheiro de mato e fogo, sentia o relinchar do bicho amigo. procurava, procurava, sentia a menina. seria a filha que ainda não teve? ouvia seu sorriso. sentia o cheiro de cor de floresta, ouvia indícios nada ver com seu mundo. ouvia? mas havia o véu separando universos, iludindo com horas, dias e anos o tempo também presente em dimensões secretas. mas ela precisava dessa memória antiga. e por mais difícil que fosse o acesso, daqui, a mulher crescida pediu. de sua dimensão adulterada pelos anos, fez-se um salto inesperado e cruzou a neblina dos sonhos, e de repente, lá estava: num imenso campo descoberto sob uma noite estrelada e fria, ao lado de uma...