mulher: quem é você?*

O que você vê é um corpo sem pontas, arredondado, pedindo por presença como um vaso, cheio de vazio, de futuro. Quem sou eu? Sou é silêncio. Um canto que vibra depois da última nota. Espreitando, entre as pedras, esperando na concretude para quando puder ser. E o tempo é agora, no auge da dureza do mundo. Porque eu broto do contrário. Mas eu ainda estou nascendo mulher. Ainda tentando entender de corpo inteiro como é se jogar assim, sem o mínimo de resposta, no escuro. Sem vela. Porque também tem isso, sabe, a gente também pode ser a hora mais escura da noite, aquele segundo em que todas as estrelas piscam, então a gente também pode ser a pausa no respirar nas estrelas. Estou te dizendo, mas ainda não sei dessas coisas. (…) Vão te dizer que a vida é guerra....

meu avô era um peixe

Tô meio sumida aqui, porque ando escrevendo uma peça. Mas como tenho boca grande difícil de ficar fechada, vou deixar escapulir um pedaço. É história inventada, mas doeu pra sair. Rasgou um pedaço junto, mas essa parte rasgada era só apego. Ou era a placenta, que nem nutria mais essa memória. Mas se doeu, o que nasceu foi verdade. E assim percebi que a dor do parto é aceitação. Quando eu tinha mais ou menos uns sete anos, aprendi a nadar. E o que eu mais gostava era de afundar lá no fundo da piscina, ficar lá parado. Gostava de ficar sem peso e sem som no ouvido. O corpo ficava leve. Eu me sentia parecido com um peixe num aquário, mas era bom. Eu me sentia parecido com meu avô, também, porque quando a gente era menor ficava brincando que meu avô era um peixe....

dramaturgia de improviso. tema: adeus

achei esse texto que escrevi em 2010, numa noite no DCC  (Dramaturgia Concisa e Contemporânea), evento muuuuito bacana que o Núcleo Bartolomeu de Depoimentos produz. não lembrava dele, acho que pela forma como foi escrito, no susto. (lá é assim: a organização dá um tema e escrevemos de improviso, em uma hora, durante o evento. depois ótimo elenco lê o texto para os participantes . sem frescura, na lata, uma delícia.) já que achei, resolvi colocar aqui. é de uma sincronicidade estranha.   PARTO   Mãe e filha estão sentadas lado a lado. A filha está grávida.   MÃE – Mas você me chamou muito cedo! FILHA – Eu não te chamei, você quis vir MÃE – São dez horas de viagem, não ia dar pra vir de repente. FILHA – Ainda falta. MÃE...

R&J: a monografia.

Pronto. nasceu. nem vou falar mais nada, depois de tanta coisa… taí! Monografia Romeu e Julieta em Recorte – a poesia posta em cena

Por que poesia (no palco)?

“Tem coisas que nos deixam sem palavras. E tem coisas que as palavras não dão conta de dizer. É aí que entra a dança” Essa frase, presente no filme “Pina”, de Win Wenders (sobre Pina Bausch) me gerou inquietude. Sou uma pessoa de silêncios (apesar de falar muito) e talvez tenha escolhido escrever porque constantemente as palavras me fogem. Mas o corpo não cala, jamais emudece. E muitas vezes desejei que palavras saíssem de meus gestos com tal espontaneidade com que movia meus braços. Sem filtro do córtex frontal, mas com a precisão de conteúdo que um gesto encerra. A poesia, porém, me trouxe um pouco desse lugar, pois é parte palavra, parte silêncio. E há certos conteúdos que, para serem tocados, necessitam do verbo permeável. Geralmente, são os conteúdos que se...

Romeu e Julieta em Recorte – finalmente, a apresentação

21 de abril, sábado, feriado fictício. Manifestações contra a corrupção seguidas de repressão policial. A polis de Escalo não está dando certo faz tempo, e a violência não tem mais nome, nem sobrenome – é tudo S.A. S.A X Anonymous. Sentada no metrô, carregando uma sacola recheada de flores de papel crepon, um pozinho mágico e dois lança-confetes, eu pensava novamente na razão daquilo tudo. Em qual era o sentido dessa peça hoje, nesse tempo e nessa cidade. De repente o trem parou no meio do túnel, e só depois de algum tempo ouvimos: “atenção senhores passageiros, estamos aguardando a normalização do sistema”. Então, sentada confortavelmente, no ambiente climatizado e civilizado de um trem sem condutor, lembrei da fragilidade que tanto tentam nos esconder, do...