o menino, o poente e a crescente

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epifanias

– A música Construção é sobre um pedreiro que subiu paredes flácidas, almoçou, bebeu e tropeçou depois caiu na contramão atrapalhando o tráfego, o trânsito e o sábado, né mãe? – É isso mesmo, Pedro. – É triste. – (Gabri) Mas é bonita, né? – Mãe, tem música que conta história? – É, Pedro, tem músicas assim. (epifania) – UAU! Como nunca pensei nisso antes? (suspense) Vou fazer um livro de história-música!   (maio de 2016)

a mãe que consigo ser

Na velha Raposo (Tavares) de sempre. Gabriel, no carro, narrando um pesadelo. – A gente estava na escola, brincando. Daí chegou um homem, roubou o brinquedo do Chico (o irmão caçula). Depois, mãe, você ofereceu carona pra ele. Aí quando entramos no carro, e ele jogou a gente pra fora. Roubou a gente. – E você viu que ele tinha feito tudo isso? Por que não me avisou que o homem era assim? – Porque eu fiquei sem voz. E eu, abismada. Foi um sonho muito forte. Refleti sobre seu sentimento, essa sensação declarada de que o adulto responsável (no caso, eu), não conseguia identificar o perigo iminente. “Será que é assim que ele me vê?”- pensei. “Tão distraída, no mundo da lua, a ponto de não conseguir protegê-lo?” Culpa é um bicho...

a sombra de todos os medos

– Mãe, tô com medo. – Do que, Chico? – Da folha!   Foram dias assim. Não adiantava perguntar que folha era aquela. Muito menos dizer que folha não mete medo, não se faz isso com o imaginário de uma criança. Eu, que tinha medo até do triângulo das bermudas, medo de que meu pai fosse sequestrado por extraterrestres, medo de areia movediça, medo de trocar de dentes, medo de Gremlin, medo do Nada (da História sem Fim), de cão raivoso no mês de agosto, de todas as doenças que o Fantástico anunciava, medo de tanta coisa absurda que não caberia aqui dizer, era a última pessoa com direitos a pedir por um mínino de explicação do por que o Francisco tinha medo de algo tão insignificante como uma folha. Mas e aí, o que fazer? Comecei a perceber que...

gabrielices

(Gabri chorando) – Que foi, filho? – Eu só tenho duas mãos! – E daí? Todo mundo tem duas mãos. – Mas eu quero fazer cinco coisas! E eu não tenho cinco mãos! (…)   – Mãe, pega um suco? (pego) – Não vai falar obrigado? – Obrigado… (1 segundo depois) Não vai falar de nada?

dilemas libertos

– Pedro, você prefere o frio ou o calor? – Quando tá frio, eu gosto de ficar num lugar quentinho, quando tá calor, num lugar fresquinho. – Eu tô perguntando se você prefere o tempo frio ou o tempo quente. – No frio gosto de lugar quentinho, no calor de lugar fresquinho, ué. (Entendi. Demorou, mas entendi.)