a mãe que consigo ser

Na velha Raposo (Tavares) de sempre. Gabriel, no carro, narrando um pesadelo. – A gente estava na escola, brincando. Daí chegou um homem, roubou o brinquedo do Chico (o irmão caçula). Depois, mãe, você ofereceu carona pra ele. Aí quando entramos no carro, e ele jogou a gente pra fora. Roubou a gente. – E você viu que ele tinha feito tudo isso? Por que não me avisou que o homem era assim? – Porque eu fiquei sem voz. E eu, abismada. Foi um sonho muito forte. Refleti sobre seu sentimento, essa sensação declarada de que o adulto responsável (no caso, eu), não conseguia identificar o perigo iminente. “Será que é assim que ele me vê?”- pensei. “Tão distraída, no mundo da lua, a ponto de não conseguir protegê-lo?” Culpa é um bicho...

a sombra de todos os medos

– Mãe, tô com medo. – Do que, Chico? – Da folha!   Foram dias assim. Não adiantava perguntar que folha era aquela. Muito menos dizer que folha não mete medo, não se faz isso com o imaginário de uma criança. Eu, que tinha medo até do triângulo das bermudas, medo de que meu pai fosse sequestrado por extraterrestres, medo de areia movediça, medo de trocar de dentes, medo de Gremlin, medo do Nada (da História sem Fim), de cão raivoso no mês de agosto, de todas as doenças que o Fantástico anunciava, medo de tanta coisa absurda que não caberia aqui dizer, era a última pessoa com direitos a pedir por um mínino de explicação do por que o Francisco tinha medo de algo tão insignificante como uma folha. Mas e aí, o que fazer? Comecei a perceber que...

gabrielices

(Gabri chorando) – Que foi, filho? – Eu só tenho duas mãos! – E daí? Todo mundo tem duas mãos. – Mas eu quero fazer cinco coisas! E eu não tenho cinco mãos! (…)   – Mãe, pega um suco? (pego) – Não vai falar obrigado? – Obrigado… (1 segundo depois) Não vai falar de nada?

dilemas libertos

– Pedro, você prefere o frio ou o calor? – Quando tá frio, eu gosto de ficar num lugar quentinho, quando tá calor, num lugar fresquinho. – Eu tô perguntando se você prefere o tempo frio ou o tempo quente. – No frio gosto de lugar quentinho, no calor de lugar fresquinho, ué. (Entendi. Demorou, mas entendi.)

<3

“Acho que o Pedro disse alguma coisa pra Júlia no intervalo que ela não gostou. Ela foi para a sala de aula chorando, disse que não queria fazer aula de educação física, que a cabeça doía muito. Eles não quiseram contar nada, mas é melhor perguntar”. (relato da professora). O que poderia ter acontecido? No carro, depuramos o fato, o Dja e eu. Ele chorou. Que foi, Pedro? Você falou mesmo alguma coisa pra ela? “A dor de cabeça entrou nela, mãe”. E foi isso mesmo, depois eu soube. Ela teve uma dor súbita, e ele estava tentando ampará-la, abraçando-a. Não foi nenhuma palavra doída. Foi a cabeça. Ufa. E ele ainda complementou: “Eu não poderia nunca deixar a Júlia triste”. Morri de ternura....

Carta aos meninos num quase-inverno de 2016

Meus queridos, O país ferve. O mundo ferve. As vitórias democráticas conquistadas quando sua mãe tinha a idade de vocês foram novamente ameaçadas. Os livros de História estão se revirando do avesso, com páginas sendo reescritas por múltiplos pontos de vista, com folhas futuras arranhando previsões apaixonadas. É um tempo bem estranho, bem louco, talvez até lúdico, e se comento essas coisas é para explicar a vocês porque às vezes eu, outras seu pai, anda pelos cantos coçando a cabeça. Porque a gente é teimoso pra caramba. A gente tem todos os aparatos possíveis para se enquadrar no “sistema”: inteligência, formação em instituição superior reconhecida, informação, ímpeto, talento. Mas a gente preferiu usar tudo isso pra fazer outras coisas, daquelas que colaboram...