Meu inverno é fluxo. Minha paz é vermelha.

  30 dias já. Nada dela chegar. Isso é terrível. Essa suspensão, sob um céu cinza, trovejante. Tempestade que ameaça, mas nada de água.   Às portas da tenda, aguardo a autorização para o repouso. Tenho me dado esse suspiro: pelo menos, um certo recolhimento. Aquele, para a refazenda. (ai, abacate do Gil, fruta-fêmea que se escuta e respeita).   Mas nada. Não é gravidez, fiz até o teste. Nada excepcional. Apenas espera.   O fluxo, antes, era reduzido. De 28 pra 25. Três dias apenas na conta da diferença, até passei em consulta pra ver se tudo bem ficar assim, “desregulada” e tal – contudo, em segredo, gostava dessa estação adiantada. O resguardo virou luxo em tempos de tanto barulho. Essa era minha pequena subversão:...

renamorados

  Nos poucos silêncios que nossa vida louca nos oferece, às vezes contemplo a chuva de prata que se derrama calmamente sobre seus fios escuros. Como se o tempo não fosse acelerado Como se a rotina não fosse intensa Escorre o pra(n)teado pelos anos a fio, lembrando cada uma das tantas travessias. Desafios mortais, ora em desertos de acidez, ora em pântanos de desalento. Eis o conto de fadas da vida adulta: o heroísmo nos mínimos atos cotidianos, enquanto a aventura grita dentro. Combatemos feiticeiras, barba-azuis, manipuladoras, assassinos, descrentes da vida, errantes desafortunados, Combatemos a inconsciência que nos faz refém das vilanias, aquelas que tomam o corpo do ser amoroso. Mas essas são as provas. Esses são os percursos que fortalecem, em...

Café com anjos

  Às vésperas dos meus 42, acabo me permitindo uma pausa para o momento presente fora das telas. Surpresa com a terceira (ou quarta?) dimensão, observando a espiral que acompanha o aroma da manhã, agradeço. Apesar de tantas provações, (tantas mesmo, entre paredes, entre bairros, cidades, fronteiras), vou construindo o espírito nessa forja insana dessa época. Tentando manter o peito aberto, a escrita fluida, buscando a arte acima de tudo (em peças, em livros, em imagens), subvertendo a ordem que aponta o dedo para a distopia, subvertendo a vergonha de ser um fracasso nesse sistema, sobrevivendo à tendência de odiar, dividir, pregar o fim dos tempos. Essa sou eu, aos meus quase 42, início do sétimo setênio. Essa sou eu, mesclada a tantos e tantas que aprendi a...

a mãe que consigo ser

Na velha Raposo (Tavares) de sempre. Gabriel, no carro, narrando um pesadelo. – A gente estava na escola, brincando. Daí chegou um homem, roubou o brinquedo do Chico (o irmão caçula). Depois, mãe, você ofereceu carona pra ele. Aí quando entramos no carro, e ele jogou a gente pra fora. Roubou a gente. – E você viu que ele tinha feito tudo isso? Por que não me avisou que o homem era assim? – Porque eu fiquei sem voz. E eu, abismada. Foi um sonho muito forte. Refleti sobre seu sentimento, essa sensação declarada de que o adulto responsável (no caso, eu), não conseguia identificar o perigo iminente. “Será que é assim que ele me vê?”- pensei. “Tão distraída, no mundo da lua, a ponto de não conseguir protegê-lo?” Culpa é um bicho...

há que se cuidar

Há que se cuidar do broto pra que a vida nos dê flor e fruto. Três brotinhos: esse foi o templo que a vida me concedeu nos últimos tempos. Parei. Tive que parar tanta coisa. Tive que começar tanta coisa… A cada um que chegava, rever minha própria chegança. Porque há que se tomar tempo pro tempo de cria. Há também que se ter alma lúcida. Há que muita coisa. Mas também há o que está além do “há que”. Para além do “avental todo sujo de ovo”, comerciais de mamãe-bebê, cartilhas de mãe moderna, todo e qualquer modelo do que ser mãe significa e se ressignifica ao longo de todos os tempos, essa parte da música do Milton trouxe, de repente, de forma linda e sintética, a noção do que é esse ofício: um imenso laboratório alquímico. Ou, se preferir, a figueira debaixo...

Carta aos meninos num quase-inverno de 2016

Meus queridos, O país ferve. O mundo ferve. As vitórias democráticas conquistadas quando sua mãe tinha a idade de vocês foram novamente ameaçadas. Os livros de História estão se revirando do avesso, com páginas sendo reescritas por múltiplos pontos de vista, com folhas futuras arranhando previsões apaixonadas. É um tempo bem estranho, bem louco, talvez até lúdico, e se comento essas coisas é para explicar a vocês porque às vezes eu, outras seu pai, anda pelos cantos coçando a cabeça. Porque a gente é teimoso pra caramba. A gente tem todos os aparatos possíveis para se enquadrar no “sistema”: inteligência, formação em instituição superior reconhecida, informação, ímpeto, talento. Mas a gente preferiu usar tudo isso pra fazer outras coisas, daquelas que colaboram...