dos miolos de invernos frios

Se essa é sua colheita, o que se há de fazer? Se é isso o que tem na sua cesta: um parafuso, um desalento. Desalento não: tristeza (foi essa a palavra posta à mesa) O que se há de fazer? Acolho, Colhendo também o que posso: aceito. Ofereço a mão estendida frente à palavra dita, meu amor, minha impotência. Também um tanto salpicada Com um pouco de tristeza minha...

renamorados

  Nos poucos silêncios que nossa vida louca nos oferece, às vezes contemplo a chuva de prata que se derrama calmamente sobre seus fios escuros. Como se o tempo não fosse acelerado Como se a rotina não fosse intensa Escorre o pra(n)teado pelos anos a fio, lembrando cada uma das tantas travessias. Desafios mortais, ora em desertos de acidez, ora em pântanos de desalento. Eis o conto de fadas da vida adulta: o heroísmo nos mínimos atos cotidianos, enquanto a aventura grita dentro. Combatemos feiticeiras, barba-azuis, manipuladoras, assassinos, descrentes da vida, errantes desafortunados, Combatemos a inconsciência que nos faz refém das vilanias, aquelas que tomam o corpo do ser amoroso. Mas essas são as provas. Esses são os percursos que fortalecem, em...

poeminha de auto-retrato

Nunca teórica; (me falta Apolo) Apoteótica. Até poética (na face clara) Também apática (em dia escuro)   (criado em brincadeira com a turma do CLIPE 2016 – centro de formação do escritor da Casa das Rosas)

na gira dos cavalinhos

Para cada filho, um coração. Mas cada peito que o contém pede um corpo, então sou pelo menos três com cara de mãe. Também sou grata por ter esse privilégio, o de poder ser presente nessa primeira infância (uma opção consciente), mas louca por conseguir coordenar os tantos outros eus que pedem passagem.   A casa, exigente, me grita pelo menos mais nove personas exclusivas, o que desobedeço com prazer. Mas com gosto eu cedo ao posto de jardineira, porque amo cultivar fadas, e elas me pedem locais mágicos e floridos. Nas artes culinárias faço o que tem pra hoje (apesar da herança genética favorável, esqueci de passar nessa fila de talentos) e a alegria de encher a casa de pisca-piscas depende de uma arrumação prévia, coisa que nem sempre tô a fim (e quando faço,...

o menino de olhos brilhantes

Sem voz há dois dias, com choro enrustido parecendo pecado se saísse em tempos de tanta demanda na fortaleza. No carro, na via travada de sempre, com tanta coisa à frente impedindo a passagem, com tanto excesso, ruído. Secretamente, eu adicionava mais uma memória à minha coleção de fracassos, cansada demais pra ter raiva, ou com raiva demais pra entender alguma coisa. Um mar ao fundo. Água salgada à espreita, muita água. Quem disse que é tempo de seca? Um anúncio hipócrita da Sabesp no rádio, que desliguei num ímpeto de quem dá em alguém um tapa na cara. Se eu me desaguasse inteira ia dar inundação. Um par de olhos me enxerga. Um par de olhinhos puxados de quase dois anos me observa no banco de trás. Puxa meu foco. Ti foi, mamãe? Como ele sabe? Como pode saber?...

tô com marte na macaca

    Você me ameaça e envenena chantagem de luto e escassez E eu, só de pirraça, não caio nenhuma vez. Você diz que a coisa é séria faz cara de sisudez Eu concordo, é séria mesmo mas fio e confio, ao invés. Você gosta de ser VIP, eu quero pra todo mundo Você vem com dados pobres, eu te devolvo futuros Você quer o meu deserto, eu te dou uma floresta. Você vive numa guerra Eu gosto de amor e festa. Mas você me chamou pra briga, então aguenta esse encosto: que agora não largo esse osso e não estou sozinha nessa....