primeiro ensaio de coisa nova

Ontem aconteceu uma coisa. Dessas coisas que podem passar batido se a gente não coloca tento. Ontem foi o primeiro ensaio do Três Vezes Vênus, um texto muito querido que escrevi há um tempo. Conta a história de três mulheres que fazem um show mambembe para sobreviver. No caminho, não registrei um aperto no estômago que achei que teria. Estranho. Lá, não fiquei nervosa como achei que ficaria. Estranho. Durante a leitura do texto, não me defendi: ouvi. E, juro, fiquei emocionada, e não tensa. Estranho. Saí do ensaio tranquila, feliz, sem a sensação alienígena que costumava ter, como quem estava em terras estrangeiras pedindo licença para estar. Então percebi o que eu sempre soube, que vinha dessa terra mesmo, do tal teatro. E era casa, e era a mesma sensação...

do três vezes vênus, que o Paulinho vai montaaaar!

Coçar os olhos Abrir os olhos Olhar o longe embaçado Saber-se sem horizonte Mas marretar a parede Porque tijolo é de barro, não de pedra E barro, assim como coisa de terra teima em ceder, fazer curvas. Aí eu rasgo uma fenda na parede E mesmo sem ver, amparo. E enlaço o horizonte com o fundo dos olhos Lugar onde formam imagens do tempo da espera,...

coisas que a gente escuta por aí I

– (…) E você vai continuar sendo duende? – A-ham (…) (Supermercado: duas meninas que passaram por mim)

novas intervenções na cidade

Eles sorriem para mim. São muitos rostos impressos em grandes placas. Colocados estrategicamente nos lugares onde a gente mais passa, onde o carro pára por causa do trânsito. Achei muito simpática essa ação do município, lembrar a todos nós a simplicidade de um rosto querendo ser amigo. Só não entendo ainda as letras e números colocadas como código sobre os rostos, talvez sejam formas de se obter contatos imediatos. Tentei usar o aparelho designado a esse fim teclando os números, mas não registrei sucesso. Alguns deles também são alegremente puxados por pessoas com um meio de transporte bastante saudável denominado bicicleta. Pessoas vestidas de joaninhas também distribuem pepéis, mas esses são fotos de prédios. É muito interessante ver como essa espécie busca...

papo meio besta antes de dormir

E você dormia vendo o teatrinho dos bichos de pelúcia na estante. Era mesmo Dizia que todos mexiam Era mesmo E eu ficava olhando pro vão debaixo da escrivaninha pensando que lá poderia abrir uma porta mágica Tipo Alice É, tipo Alice. Imaginava coisas que poderiam ter atrás da porta Mas não era legal? Não. Porque eu não acreditava que aquilo existia Se você me falasse, eu ia acreditar Lembra quando você queria me convencer que veio de outro planeta? Você quase acreditou Eu nunca acreditei. Mas você acreditava que eu via os bichinhos mexerem Ué, mas isso eu sei que você via Sabe como, se só eu via? Sei lá, mas nisso eu acreditava E era por causa do revenil. Era por causa do revenil… (pausa) Será que o papai sabia que o remédio te dava alucinação? Acho que ele...

a noite do dia

Seja qual for a idade, anos ou meses, volta e meia nos deparamos com uma verdade incontestável: crescer dói. Mais fácil quando a dor é física, como aquela que dá na perna, uma coisa esquisita que parece que repuxa, e ao reclamar a mãe profetizava: quando crescer, passa. Não. Tem dores que são mais pra dentro. Sem ter nem pra que, o corpo fica inconveniente, inadequado, parece que tudo remexe, como se a gente não coubesse mais em si. E estando do lado de lá, de quem assiste e desesperadamente busca o que fazer: o que fazer? Buscar remédios, decifrar sintomas, buscar sinais de onde vem o foco, buscar o diagnóstico perfeito? E de repente, no meio disso tudo, a intuição de um abraço. Um aconchego. Desses em que se respira junto. De mansinho, os gritos vão dando lugar...

três vezes vênus (fatia)

Risca um fósforo. Acende um cigarro. JOANA Foi assim que tudo começou… Assim que fizeram os perfumes E as bombas A razão do homo sapiens Homem sapiens, mulher sapiens H-o-m-o s-a-p-i-e-n-s E agora é assim, portátil A gente carrega no bolso Fogo pro rabo, pro cigarro, pra cabeça A gente risca e psssssssssssssssssss Faz a mágica Logo apaga E joga fora.