pele de pêssego

Todo mês ela subverte. Em seguida, cede. Não por falta de coragem, mas por já ter introjetado a crueldade do padrão. Triste: ao terminar, sente-se melhor, ainda que o antes seja um sempre martírio. Sempre adiado. Às vezes, um mês escapa, em trégua. Ela finge não perceber, finge não perceber-se. Uma vez entregue ao ritual, tem que ir até o fim. Parte por parte, sacrificando a carne. Há quem o faça entre outras, entre revistas e fofocas. Mas só de pensar na possibilidade dos olhos cúmplices, das mãos cúmplices, ela gela: não. Terá que fazer com as próprias mãos. Dizem que ela o faz da forma mais dolorosa, hoje há tecnologia para menos – pra que? Não. Ela resgata, a cada vez, a dor da primeira. Como se mil agulhas entrassem pelos poros, e todo o sofrimento tivesse...

DCC

Lá vou eu de novo falar do DCC. Mas merece, merece, merece. Ontem, apesar da chuva torrencial, rolou, e foi muito, muito bacana. Pra gente que escreve, poder ver o texto vivo, lido no susto, é bom demais: revela tudo, a força, os problemas. Tem que ter desapego, é um jogo. Mas sempre muito divertido, com cara de papo de bar, daqueles bons sem vontade de parar. Aliás, tem bar também. Ontem fui sorteada – agraciada pela sorte mesmo: ter o texto lido por Ana Roxo e Tica Lemos, e debatido por Silvana Garcia. Obrigada, Núcleo Bartolomeu de Depoimentos, por esse espaço dedicado aos autores. Obrigada, Dani e Luaa, por me ajudar a cuidar dos meninos enquanto eu ouvia as leituras (sim, ainda se pode levar as crianças, coisa rara por aí). Muito obrigada mesmo. Depois...

pensamentos aleatórios I

hoje percebi: cortar a unha com os dentes deixa as pontas mais retas que usando a tesoura. Fica meio serrilhado, mas isso logo sai, mantendo o formato desejado. isso me deu um estranho poder sobre as máquinas, mesmo as mecânicas. é sempre bom poder contar com poucos recursos para as necessidades cotidianas.

coisa nova no comecinho…

adoro esse momento: o aninhar dos livros de referência, as pesquisas, a trilha sonora, queimar folhas de sálvia, me perder no imaginário. Ouvir: decifrar: agora, o que é? pedir pelas palavras essenciais, que não sejam mera catarse. o que merece receber, o mundo além-mim? nova espiral que começa a girar. no centro, apurando ouvidos, uma parte de mim: sacerdotisa das palavras e entrelinhas.

cotidiano

Eu passo por eles às quintas de manhã. O tráfego é intenso. Poderia olhar atentamente, se quisesse. Quero, mas o receio de que a cena enquadrada pela janela, tal tela de cinema, torne-se real demais, próxima demais, segura o olhar no soslaio. Retrovisores. É uma casa a céu aberto, como seria a de Vinícius, se não tivesse ao menos o chão. Minto, mais que isso: chão, colchão, correntes e papelão. Eita que um deles escova os dentes em plena rua, enxagua a boca com água de garrafa pet, num despertar público. Ousa ser cotidiano, trivial, e no meio desse ato obsceno, observa a bunda da moça que passa, fingindo indiferença num salto alto. Ousam seguir vivendo, os miseráveis. E eu, que tenho hora pra acordar e quis dormir só mais quinze minutos, atrasada para o trabalho,...

guias da gente mesmo

Outro dia me deparei com isso aqui. Um sorriso de leite. Fiquei olhando pra ela pedindo conselho. Diz aí, como é que faz mesmo? Ser assim, tão inteira? tão presente? O que foi que eu deixei pra trás? O que eu tenho que deixar pra trás? Falta ou sobra? Lembrei dos dias inteiros. Dias para brincar e viver, nunca dormir (era esse o único drama). Ela me olhou por um tempo. Não respondeu nada muito sério, nem elaborar muito sabia. Só pulou da cadeira e buscou um livro de histórias, me pediu pra ler, enquanto comia sorvete. Sem resposta clara, e sem saída, abri. Ao invés do “era uma vez”, aquela começava assim: uma vez, eu...

lugares sagrados

às vezes, no mundo espiritual, a gente visita espaços únicos, indescritíveis. às vezes, no mundo visível, esses espaços se materializam. Aí viram ponte para outras dimensões. pariquera-açu. sítio toque natural entre matas e estrelas cadentes, em águas reveladoras, no meio do fogo da oca sagrada, guarda-se um sonho. guardiã do segredo: amiga-irmã Maria...