.

logo atrás dos cabelos, perto da nuca, chama. mora próximo à região do ouvido. um ponto delicado. se regido, faz circular o choque costa abaixo e costa acima, fazendo cócegas na espinha e perto da axila. há um som que dispara o ato, dito de determinada forma, naquele exato ponto. o choque desce ventre abaixo, conectando sexo ao ser, o ser a tudo. sangue corre mais forte, de repente mais intenso, cachoeirando artérias e dando calor. suor sai pela pele, mostrando a saída do dentro pra fora. é lá que saio de mim cotidiana. é lá que sou, natureza. logo atrás dos cabelos, lá na raiz, perto da escuta.

Uma obstetriz me fez (re)nascer

Semana passada fiquei CHOCADA com uma notícia: a ameaça de se acabar com o curso de Obstetrícia na EACH (pra quem não sabe, a unidade USP na Zona Leste). Não posso dizer que fiquei surpreendida, porque achava quase inacreditável que um curso tão revolucionário pudesse estar abrigado nos moldes quadrados da USP, mas não imaginei que chegassem a tamanha barbaridade e desrespeito. Como tive minha vida transformada pelo encontro com uma obstetriz, Vilma Nishi, seria quase uma heresia ficar quieta frente a esse fato. Adianto que não vou partir para a briga, pelo menos aqui nesse texto. Sei que há um movimento iniciado, e mulheres e homens trabalhando para defender o tangível e o intangível do curso – porque apesar de todas as questões concretas, como número de...

crônicas de kung fu I – passando pelo portal

O corpo é mais que um tripé de cabeça. Não que eu já soubesse, mas já desconfiava. E como vivo nesse preconceito muderno que privilegia o “pensamento”(leia-se Cabeção) como um grande chefe, e o corpo como o peão que executa as ordens, estava assim, meio largada. Claro, porque chefe que é chefe só manda, e a massa executa. Mexer o corpo é coisa de que ainda não chegou lá, no topo. Viagem minha ou faz algum sentido? De qualquer forma, ficava a culpa pelo sedentarismo. Culpa mesmo, dessas cristãs, que adoram o flagelo. Fugi das academias e passava de tentativa em tentativa, a maioria solitária – andar, nadar, pular. Muito efêmero tudo. E meu lado rebelde clamando por tortura nunca mais. O Cabeção ordenava: Você tem que fazer algum exercício! O que...

do outro lado do mundo aqui

preciso desabar, mas estou a caminho. ,num coletivo, com minha dor somada a tantas outras. tantas mais graves. o que será que acontece com o choro não chorado? coagula em cólera? empedrece em mágoa? engelece-indiferença? e se a água de mim é salgada, posso fingir, então, que vislumbro mar distante. de tão perto que de repente fica, vaza um pouco pelos cantos. pelas bordas ciliares. assim justifico lágrimas caídas em público, sem a menor explicação. desculpe, é a natureza, pelo descuido, em tsunami.

sobre devotos

Ao lado dos altares-pedestais caprichosamente decorados com oferendas, há sempre uma cesta de pedras. Estranhamente, para a mesma divindade. Mas só em casos de amor não correspondido.

estudando o amor III

Nada se compreende (dessa matéria) nesse estado de estudo. Só se apreende. Serve de nada. Só cansa.

estudando o amor IV

Sempre há um terror infantil da segunda expulsão do paraíso. Como se já não bastasse nascer. O terrorismo da bronca: serei eu ainda amado pelos poucos que me rodeiam? O terrorismo da aula de genética: de onde vem minha pele escura, meu olho claro? E se venho de outro lugar desconhecido de mim? Qual minha origem? Se posto na filosofia – de onde viemos? – fica tudo tão distante que se perde a natureza da coisa. Se posto na biologia – de onde vem os bebês? – fica tão científico que se perde a poesia. Realmente, não há respostas para a nossa entrada. Só saídas: abraços.