prazer secreto

quer saber? parte de mim vai ficar no mistério, peixe fora da armada. livre de todas as redes, teias, conexões. tão, tão bom dormir nesse amparo de não se saber por inteiro!

para quem só poderia ser

Quando eu aprendi a sonhar, não sabia pra que mar esse rio correria. Tinha vontade de ser, e era só. Sonhava com amor eterno. Sonhava com causas nobres. Sonhava com mil bocas me beijando, uma para cada um que meu olhar percorria em desejo adolescente, inconstante, mas intenso e fiel no momento em que manifesta. Eu sonhava com um amor gentil, esculpia um homem quase irrealizável com um coração maior, um pouco maior que o normal. Um dia , você me apareceu, ou eu que apareci, sei lá. Fui eu que saltei sobre você, como fazia na época, cansada de ser presa de espera na torre dourada. Há muito tinha perdido os sonhos de princesa. Sonhava só com alguém com o coração além da conta, exaurida que  estava de tantas batalhas perdidas. Ou ganhas. Toda batalha, em si, já era...

promessa de outono

Outra eu vaza pelas grades sutil, espreita gotícula, quase ainda umidade, passa pelas frestas, quase ainda invisíveis das invivíveis represas:  fortes, firmes, fiéis (ao reter); frágeis, falíveis, fumaça cortinando (ser)

aprendendo a separar

o que eu quero o que eu acho que quero o que eu aprendi a querer, o que eu acho que deveria querer. (…) e que separar não é tão fácil quanto parece, e que essas opções não são tão claras como poderiam, e que a mente trai o corpo, às vezes, que os moralismos traem a gente, sempre.

crônicas de kung fu II – A gente morre (ou vive) pelo coração.

Havia uma brecha, sei lá quando ou onde. Talvez eu já tivesse dormido assim, ou sonhado com alguma coisa estranha. Nada que eu tenha conseguido pensar, ou aprofundar, ou ouvir de mim. Acordei como todos os dias, talvez mais preocupada que o habitual pelo (já quase habitual) excesso de coisas, talvez estivesse pendendo pra fora do eixo, sem guarda. Se nessas horas entra palavra estranha, que soa brusca demais pro cedo das horas, evidencia a fissura. Não sei. Mas se até vento batendo nas costas de surpresa pode dar em resfriado, torcicolo ou coisa pior, assim é a palavra dura dita de relance, ainda acordando, ainda sem estar inteira. Assim cheguei na aula, mesmo sem saber, ou sabendo sem dar importância às coisas pequenas de sempre. O corpo acolhe tudo, a mente...

sobre rugas e mini-rugas

dança da vida mapeada no rosto mini-rugas mini-ruas de si.

através

eu filtro o mundo de fora por lentes: câmeras, óculos, crenças e outros enquadramentos. o de dentro, por personagens. será que a realidade me queimaria os dedos, os olhos, a língua, se não houvesse intermediários? ou tem coisa que a gente só capta assim, pelas bordas, pelas voltas, no tempo fora das horas?