das cartas hipotéticas ao filho (da Juke Box)

Vão te dizer, meu filho, que a vida é guerra. Que ela se enfrenta, se encara. Contra ela se luta. Assim se tornam bravos, os homens. Pois te digo: ela é boa. A vida tem coisa de fêmea. Não se conquista ou domina....

primeiros chamados

  Lá estava ele, enorme, convidativo, inesperado, extra-cotidiano. Lá estava ela, sentada, criança, com desejo no coração e frio na espinha. Um puxando pra frente, outro pra trás. Alguns outros, mais ousados, foram imediatamente. Ela, pequena, hesitou. O apresentador do circo fez a última chamada ao passeio. Ela, menina, raspou pé no chão, moveu o músculo certo que a faria levantar e se jogar, mas no último segundo colou na cadeira. Apresentador abaixou os braços. O tempo acabou. E o elefante deu cinco voltas pelo picadeiro, e crianças cheias de coragem, lá em cima, pularam no seu cangote. E ela apenas assistiu à aventura. E o tempo passou. E novos elefantes vieram.   (ilustração de Michael Vincent Manalo, coletada em Infinitos...

ontem, num busão lotado…

ouvi um ciúme de uma namorada cujo namorado estava grudado em mim ouvi um tsc tsc bem perto da minha orelha (pessoa limpando dentes) ouvi muitas músicas de fones alheios, que para mim eram chiados ritmados ouvi meu coração pedindo socorro e mais transporte público ouvi o espírito selvagem da vida enlatada ouvi resignações, e a minha própria ouvi zumbido na cabeça, horas depois. numsegundosó, não ouvi nada éramoscorposjuntosbalangandosemrumo.

mais um teco de Juke Box (ainda no forno)

FILHO Mãe? Pausa FILHO O que é a mulher? Pausa MULHER Fica de pé, parado, ereto. Respira fundo, parado,ereto. No centro, bem lá no centro, vem um desejo espiral de giro ao redor do eixo. Uma graça que se movimenta, padrão de galáxia, uma dança infinita rodando pra cima. Flor com cheiro delicado. Você, meu filho, no centro: só cuida. Se tentar agarrar, ela escapa, dissipa, resseca. Só cuida, gentil. Protege, sutil. Sobe junto, na espiral sagrada, mão a mão, lado a lado, você no centro, a mulher nas bordas, girando e subindo. Você, o esteio, ela, movimento, você, a moldura ela, o momento. Mulher, ligadura. Você,...

reaprendendo como se começa o eu

GABRIEL: mamá. (depois…fase Yoda.) mamá qué  (depois…evolui:) qué. eu qué. qué. qué. qué. (não se sabe o que. é só um querer. às vezes, direcionado a algo concreto, às vezes a nada específico.) palavras que nasceram praticamente juntas, crescem juntas, té longe na vida: eu qué.

uma sombra violeta

Eu não sou atriz. É assim que eu me defendia de ser (atriz, e outras demais coisas: eu não sou). Aí, no curso de pós em direção teatral (do Célia Helena), a gente ia ter que atuar. Era um exercício pra aula do Marco Antônio Rodrigues. Eu até poderia dirigir ao invés de atuar, mas uma coisa maior que minha ranhetice (que disfarçava minha vergonha, que disfarçava meu medo, que disfarçava….) me jogou na corrente. Boralá atuar. Danilo Moreno seria o diretor. Figura linda, vinda de outros cantos (Recife, Rio, outras paragens). Karina, psicanalista, e Jacqueline, única atriz entre as atrizes, completariam comigo o elenco. Entre as escolhas possíveis de texto, ficamos com Plínio Marcos, o Querô. Quem conhece sabe que não é bolinho: da classe média ao cais de...

teco de peça que vem vindo

… e não era plenamente nada repartida era e nesse fragmento se ancorava no que dava e dava certo porque o mundo em que ela estava tava desse jeito tava assim o mundo que ela estava então a parte parecia todo e era frag mento