passa tempo I

o número de estrelas pintadas na minha pele cresce. aumentam os traçados possíveis de constelações. a raíz dos cabelos, no alto da cabeça, prateou. e o rosto já aponta alguns vincos/vales de caminhos conhecidos

borboleta batendo cabeça

borboleta batia cabeça no vidro da janela tive pena dela “pena tem quem se sente superior”, pensei. problema dela. se de lagarta já voou, se vira! borboleta batia cabeça insistentemente no vidro da janela. será que a consciência de algumas espécies podem estar a serviço de outras? pensei, pensando também se ajudava ou não. será que há uma função cósmica no ato de bater a cabeça no vidro? será que devo eu intervir, tendo consciência que a pobre lagarta de asas pode passar o resto do dia tentando sair? borboleta batia cabeça. foi dando aflição de tanta inconsciência. borboleta batia cabeça. foda-se. empurrei a borboleta pra fora do vidro, no vão da janela. borboleta bateu asas. e eu continuei no chão, pensando como ela, que rastejava, hoje consegue...

“ensinar” ou a arte do pulso

Quando eu comecei a dar aulas, imaginava que o mais importante era reunir um repertório (o mais completo possível) de conhecimento, organizar tudo de forma “didática” e “transmitir” esse conteúdo aos alunos. Depois descobri que essa é só a forma. Necessária, porque delimita, mas vazia, se parar por aí. Como um copo sem nada. Forjei muitas taças. Sem elas, o líquido não se sustentaria. Mas atualmente tenho me dedicado a destilar sutilezas, forjar novos beberes. E perceber que esse ofício é sacerdócio: estar a serviço de algo maior, que a partir do meu próprio conhecimento, resvala. Para isso, é necessário o encontro. E preciso o outro. A troca só acontece entre dois pontos que pulsam, assim se desenham as constelações. Agradeço aos meus mestres e mestras por terem...

12.10.11

às madonas de mim, ave! ave corpo sagrado ave vulva me entrego ao fogo liberta da fogueira passada pulo no gozo da primavera, do riso frouxo, dos braços abertos das axilas livres voltadas pra lua da língua solta, entrelaçada à fera em mim, ave! bem -vinda seja, força da terra bem-vinda seja, padroeira nossa bem-vinda seja, alegria recém brotada, aparecida do fluxo, do rio, ao som de arrepios na nuca.

tem um retângulo com botões. antes era uma caixa, muitas até ainda existem por aí, mas aos poucos estão sendo amontoadas em algum canto mágico do planeta para onde vão as coisas sem utilidade, ainda que funcionem. (mas isso não vem ao caso) nos retângulos se projetam imagens de um suposto cotidiano. soube que algumas são falsas (a que chamam histórias) e outras verdadeiras (a que chamam História). não entendi a diferença, mas isso não vem ao caso. gritam muito nesse retângulo iluminado. entre uma coisa e outra, tentam fazer graça, tentam avisar sobre coisas terríveis que acontecem e estão por acontecer (sofrem muito por imaginação), mostram coisas extraordinárias que não fariam muita diferença no cotidiano, mas parecem imprescindíveis. no caso dessas últimas,...

com a palavra, Naomi.

Hoje li isso aqui e me senti inteira. Inteira de esperança. Não me importam as teorias apocalípticas. Se conseguirmos, como espécie, lograr o feito de nos sentirmos UM por um tempo suficiente de mudar absolutamente a ordem das coisas, pronto: o futuro tá salvo. Essas palavras de Naomi Klein me comoveram. Naomi Klein: Ocupa Wall Street é o movimento mais importante do mundo hoje “Por que eles estão protestando?”, perguntam-se os confusos comentaristas da TV. Enquanto isso, o mundo pergunta: “por que vocês demoraram tanto? A gente estava querendo saber quando vocês iam aparecer.” E, acima de tudo, o mundo diz: “bem-vindos”. Dez anos depois, parece que já não há países ricos. Só há um bando de gente rica. Gente que ficou rica saqueando a riqueza pública e esgotando...

ainda.

na chama de um barco a vapor e pedia amor na sombra de um rio sem vento e pedia tempo na esfera de um plano sem hora esperava aurora num som que além-dor se traduz e pedia luz.