Misplica as tragédias?

Lendo Romeu e Julieta, refletindo sobre o significado da tragédia, onde ela leva… me deparei com esse momento: Pedro, com 4 anos e meio (e sendo parte dessa nova geração que vem com plug in de autoconsciência) deu pra isso: ao ficar contrariado (quero-isso-mas-não-posso), range os dentes e grita. em seguida, tem uma série de movimentos contraditórios que inclui me bater. não contém o impulso do desagrado, mas ao mesmo tempo observa, assustado, sua própria reação. sente, simultaneamente, raiva e espanto. logo em seguida, me abraça, chora e pergunta: mamãe, o que tá acontecendo? tá acontecendo, filho, que você ficou com raiva, e a raiva dá vontade de bater. mas como você sabe que bater machuca, você ficou triste por ter batido. entendeu...

chá com shakespeare

pronto. criei coragem e mergulhei nesse oceano. precisava de um tema para o trabalho da pós em direção teatral, pensei que era agora ou nunca pra fazer o que eu quero há muito tempo: hello, Master Shakespeare! pleased to meet you! no começo, eu pensava que o medo era pelo enfrentamento da imagem canonizada. depois de ler algumas coisas e falar com gente que já fez, ficou a dica: quer fazer? vai lá e faz. fui lá. mas onde é lá? meu deus, aí entendi o medo: não era da Academia, era do lá pra onde eu iria, e já sabia, lá no fundo, o que seria: o turbilhão. mexer em peça dele não é só literatura! não é só teatro. é girar as engrenagens de coisa antiga, máquina mágica. é , na fala, despertar encantamentos. sendo ou não iniciado, ele constrói feitiços – todos...

sambando

sei que sua dor tá no caminho mas quero passar com meu sorriso (sorry, Nelson. já vi o sol e a lua juntos no mesmo céu.)

gabriel

há exatamente dois anos, nessa mesma hora, eu vivia o êxtase do limiar. era um dia assim, de sol, e já quente. a essa hora, chegava a parteira. a essa hora, eu pedia com todas as forças para que tudo corresse bem. nesse momento, a presença de todos os anjos fez um rodamoinho de vento. começou devagar, como brisa, embalando em ar a nova alma que se aproximava da nossa casa. antes de nascer, visitou em sonhos parentes, o pai inclusive, com a frase que seria o seu futuro legado: papai, vamos brincar? e duas horas depois, brincando ele chegou, montado no redemoinho, que naquele momento já era vento. tenho certeza que pulou gargalhando na película do tempo e se jogou de cabeça, como agora faz no sofá. e há quase dois anos (e serão dois daqui a duas horas), eu me via...

flores do verão – Sabugueiro

ele vive com a gente há sete anos. chegou com a nossa primeira casa, na Lapa. suportou a destruição do bairro, as britadeiras, a poluição. suportou a mudança. veio pro Butantã, foi solto do vaso, esparramado em terra. depois de dois anos,...

prece para tempos urgentes

não me venha falar de amor que o tempo urge navalhadas, tiroteios, gente vil, desabrigados, não me venha falar de amor em tempos de dor urgente. gente caindo das casas gente sem casa meninos sem pais país com governo S.A., delinquente, dinheiro na mão de quem é indiferente, que toca fogo, o puteiro, que esquece que é gente. não me gaste palavras com isso. faça o favor de fazer protesto. não faça de conta, faça diferença! (esqueça os slogans) mas não me venha falar de amor se o direito entorta, a direita endurece, pesa a mão e chama a polícia, se as chamas invadem casas, invadem corpos, incendeiam vistas. não vista uma pele leviana. que o leão ruge. que o cerco aperta que o tempo fecha que a fala some não me venha falar de amor se o tema é guerra. não me venha com...