breve ode à anarquia

não acredito em partidos. só em todos. multifacetados, multicoloridos, polidimensionais, amorosos integrais e felizes inteiros.  

lição na escola

– Por que ele fala assim? Em um ano e meio na escola, foi a primeira vez que uma criança me perguntou, assim, diretamente. Me pegou meio de susto, e na frente do Pedro. Pausa para pensar. Tempo congelado. Pergunta de criança é coisa séria. “Não sei, também estou procurando a resposta” seria algo sincero, mas sabia que para uma criança jamais seria satisfatório. Talvez porque, no fundo, a gente até sabe. Mas o tempo corria, os dois olhos e ouvidos aguardavam com expectativa, e sem que eu me desse conta, saiu: – Porque antes ele falava com música, e agora tá aprendendo a falar com palavra. Ouvi o que eu disse sem saber por que tinha dito. Me pareceu verdade, e só. O sorriso da criança confirmou: – Queria ouvir ele falar com música!...

conseguindo parar para ver

que o olhar meio estrábico de alguém que vejo sempre desperta em mim a beleza da assimetria; que no ar, entre o céu e a terra, cruzam pequenos pontos brancos, leves, inconstantes, às vezes penas, às vezes painas, às vezes nem sei; a ternura de testemunhar pequenas conquistas, como a própria mão escovando feliz um dente de leite; que alguns fios brancos somados na fronte de quem se ama torna presente o tempo do tempo, a dor da passagem, a alegria de vivercom; que um resfriado não é o fracasso do corpo, mas inverno que entra na pele pro corpo virar mais abrigo; estou conseguindo parar para ver a impaciência do ser enclausurado na casca do deve ser; que uma semente pode ser barco, fluir pelo rio, mas logo depois virar chocalho; que no meio do vazio de uma mata uma...

ainda inverno

seco. em silêncio sincero; (choro para aguar) sintetizo. cinestésicos sins, som das sombras, (choro para aguar) sementes.