chuvarada

e o mundo lá fora, visto do vidro aguado, derrete como sorvete ao sol, mas só que como sal na chuva. só há uma coisa salgada e doce ao mesmo tempo no mundo: turva o vidro dos olhos porque deles nasce.

tentando ser phyna

Gabriel aponta: bunda! Fala bumbum, filho, que é mais bonito… Tá bom… bumbunda! (#poetasnafamilia)

chute na bunda, peteleco na orelha

acabaram-se as desculpas. enterrar o tesouro recebido não vai fazer brotar planta alguma. quem sabe mais tarde? em melhores condições… mas não. talento enterrado não vira nem adubo. entristece. terra vira areia; sonho, miragem.

divagues de um dedo após apertar o botão verde

Quando coloquei meu dedo naquele botão, não deixei de sentir um certo orgulho. Talvez seja uma ilusão de poder, talvez eu tenha sentido, naquele toque, a luta de tantas pessoas que batalharam para que esse momento fosse possível. Mas nunca, para mim, foi tão difícil decidir. Nunca ficou tão evidente a contradição desse gesto. Sempre pensei que a realidade era complexa. Qualquer tentativa de definir, explicar, reduzir, acaba nos colocando em um fragmento, facção, partido. Um ponto de vista único. Mas bem, também temos que decidir, não ficar em cima do muro. Mas decidir de verdade é diferente de decidir entre o que já foi decidido. Então percebi que não é que vivemos numa realidade complexa, mas num sistema complexo de polirealidades. Ah, é a mesma coisa, pode-se...

nos campos

plantando sonhos na mãe terra para colher realidades na matéria (ainda que etérea)

dramaturgia de improviso. tema: adeus

achei esse texto que escrevi em 2010, numa noite no DCC  (Dramaturgia Concisa e Contemporânea), evento muuuuito bacana que o Núcleo Bartolomeu de Depoimentos produz. não lembrava dele, acho que pela forma como foi escrito, no susto. (lá é assim: a organização dá um tema e escrevemos de improviso, em uma hora, durante o evento. depois ótimo elenco lê o texto para os participantes . sem frescura, na lata, uma delícia.) já que achei, resolvi colocar aqui. é de uma sincronicidade estranha.   PARTO   Mãe e filha estão sentadas lado a lado. A filha está grávida.   MÃE – Mas você me chamou muito cedo! FILHA – Eu não te chamei, você quis vir MÃE – São dez horas de viagem, não ia dar pra vir de repente. FILHA – Ainda falta. MÃE...

vá (ou assim falou Beatrice)

então feche os olhos. vá ficando assim, meio sorrindo. livre a roupa que aperta. vá ficando assim, meio livre tire o suor do sacrifício. não, nada sacro. balance o sacro, ao invés. vire de pernas pra cima, vá ficando assim, meio vermelha. vá ficando assim, meio vapor na cabeça, meio carne viva. latejante. vá ficando assim, mulher sem vergonha. vá ficando assim, vida sem medo.