perto dos 39 degraus

a minha geração nasceu na ditadura, a minha geração subiu pro céu num balão mágico e desceu numa nave espacial xata, a minha geração tinha mapa de sala na escola. lugar fixo. só vencia um.   a minha geração batalhou muito. corre atrás. ainda batalha. aliás, a vida é uma luta (pra chegar na frente)   eu fui criancinha nos anos 70, menstruei nos anos 80 e virei self made woman nos 90. eu queria um canivete. eu queria ser aventureira. eu queria ser Goonie. eu queria ser popular. eu queria passar pro outro lado da televisão. eu cresci com barbie-querendo-ser-cinderela-precisando-ser-she-ra-temendo-ser-mulherzinha. meu irmão cresceu com falcon-querendo-ser-thundercat-precisando-ser-superhomem-temendo-ser-mulherzinha. eu sabia fazer tricô, mas esqueci. eu...

das aprendizagens permaculturais

uma coisa é a lapidação dos talentos, outra é o estreitamento do ser. a especialização emburrecedora a redução da ação a um emprego, a um título, a um estado temporário e dependente de promoção de reconhecimentos alheios pior: de um sistema de violência (insustentável) que o sustente a monocultura do ser e do pensamento só tem um fim: o deserto. (a partir da ponte entre monocultura da terra e do pensamento de Djair Guilherme)

gabrielices

mãe, a nuvem é o cobertor da lua?

batatinha quando mama

Batatinha quando nasce espalha a rama pelo chão. menininha quando dorme põe a mão no coração. Francisquinho espalha a rama no meu corpo quando mama. põe a mão na minha pele, sente o pulso do meu peito. esparrama sua essência e se ancora em parte minha e essa parte vira terra, pra nutrir sua raiz. até que ele, feito árvore, com suas ramas feitas ramos, gere frutos pelo mundo até que ele, feito gente, ganhe pernas pra além-mar   mas estarei sempre entrelaçada nessa parte minha terrena da carne onde se geram sementes, nessa parte vazia de mim, onde se plantam os sonhos.  

marte, macacos e macarrões

era um lindo domingo. sol e céu azul, disfarçando de serenidade a turbulência absurda desse momento: lá em cima, Marte bem perto da Terra, eclipses iminentes, alinhamentos tensos e um monte de previsões de rompantes. cá embaixo, na nossa vidinha, um cuidado pra não comprar briga. mas é outono, é quaresma, é isso tudo, é hora de largar o que não serve mais, e essa energia é boa pra desapegar sem mimimi, porque as coisas que precisam sair da cola dão no saco mesmo, e de um jeito insuportável. mas ainda assim, era um lindo domingo. por que não aproveitar e passear em família? escolhemos o templo Zu Lai, que é aqui perto de casa, mas que a gente nunca tinha ido. apesar da paulistanice da chegada – carros e mais carros buscando seu lugar à sombra – o lugar...

prova de cavalheiro: o embate com o gigante

ele era puro suor e febre. olhar vidrado. ele estava alucinando era ele contra o gigante. e o bicho tinha uma faca. ele sentia os olhos doendo, e a dor da faca do gigante em seu corpo. eu estava preparando o banho do Francisco, seu irmão menor, e ele surge assim no banheiro, já acordado mas ainda imerso no pesadelo, apavorado, em plena iniciação. por ação da grande mãe, Francisco estava em paz no bercinho. eu estava sozinha em casa com os 3, mas pude acolher um só na sua urgência. entramos no banho. aninhei-o pelas costas, para que ele sentisse o manto da proteção. coloquei a mão no seu pequeno coração que batia às marteladas no seu ritmo de beija-flor. eu não sabia ainda o que fazer, mas tinha uma só certeza: não poderia dizer “não foi nada, foi só um...

Senhor Rosa

ele já tinha sido assaltado mais de 20 vezes. ele tinha uma rosa de plástico no painel do seu taxi. ele me mostrou uma marca de bala na porta do carro. ele dirigia à noite, mas agora anda só de dia. ele disse que piorou muito de dois anos pra cá. ele era muito simpático. ele me disso tudo isso em cinco minutos de rota. … fazer o que? … … – o sr. já pensou em mudar de profissão? – eu não sei fazer outra coisa, né? e ninguém me dá oportunidade… … – esse táxi é seu? – ainda não, tô pagando. o que era meu me roubaram. – ah… …