(di)verso além das palavras

Papai, o Pedro tá estragado. Eu só tomei conhecimento dessa fala algum tempo depois. Se tivesse ouvido na hora, não sei o que faria, acho que seria quebrada em mil pedaços. Ainda bem, ela foi endereçada ao pai, um consertador nato de coisas. Você tinha quase cinco anos. Até aquela data, a gente esperou. Coincidíamos, seu pai e eu, sobre a mesma terra firme: não queríamos forçar sua natureza. Sempre soube que não havia algo a se corrigir, e sim a se ampliar. Nunca senti algo errado, era só diferente. Ele ainda não fala? – alguns deixavam escapar, como se fala fosse coisa uniforme. As respostas variavam de acordo com meu estado de espírito: sim, mas a primeira língua dele é a música – era a resposta que mais me ressoava a verdade. Porém, depois desse...

prova de cavaleiro: o coração gentil

Saiu da escola com coração abalado. Forçando uma brincadeira, havia machucado uma das meninas da classe, pegando no seu braço com força além da conta. Ficou roxo, ela reclamou, mostrando que doía. Ele, aprendendo a duras penas o limite do corpo alheio, na volta pra casa, ficou amuado. – Tá tudo bem? – Não. – O que aconteceu? – Tô com vergonha. – Conta que passa. (Tentou falar, mas a fala não saía) – Tô com vergonha. – Conta se quiser, então. (Silêncio no carro. Agonia era tanta que dava até pra apalpar no ar. Passaram-se duas músicas e uma eternidade) – Agora eu quero falar. (A história saiu doída) E eu, orgulhosa da vergonha dele. Da culpa não, culpa não presta pra nada. Mas vergonha na cara sim. Sentir o sentir do...

na gira dos cavalinhos

Para cada filho, um coração. Mas cada peito que o contém pede um corpo, então sou pelo menos três com cara de mãe. Também sou grata por ter esse privilégio, o de poder ser presente nessa primeira infância (uma opção consciente), mas louca por conseguir coordenar os tantos outros eus que pedem passagem.   A casa, exigente, me grita pelo menos mais nove personas exclusivas, o que desobedeço com prazer. Mas com gosto eu cedo ao posto de jardineira, porque amo cultivar fadas, e elas me pedem locais mágicos e floridos. Nas artes culinárias faço o que tem pra hoje (apesar da herança genética favorável, esqueci de passar nessa fila de talentos) e a alegria de encher a casa de pisca-piscas depende de uma arrumação prévia, coisa que nem sempre tô a fim (e quando faço,...