Ensaios R&J – Pequeno interlúdio estelar silencioso

   chá com shakespeare

Essa foi uma semana atípica de começo de Outono. Não conseguimos nos encontrar, apesar de dois encontros marcados. Como pedi para que o que regesse esse processo fosse o aprendizado, não faria o menor sentido brigar com as circunstâncias, especialmente aquelas fora do nosso alcance. E se nesse ano de 2012 as coisas estão realmente intensas, como creem vários – inclusive eu – achei por bem entender a mensagem, a começar por algo óbvio: o que significa essa mudança de estação?

O útero da Mãe Terra é representado pela caverna do Urso. É o lugar de morrer para renascer. Da nutrição e da proteção. Do mundo subterrâneo e da escuridão, o Feminino Profundo. (…)

Segundo Meadows, o Outono vai se firmando, criando uma tensão. Ao sair do verão, o tempo flutua diariamente as vezes com o morno e como as chuvas do frio do inverno. A natureza faz a passagem da estação do crescimento e da produtividade para a estação da colheita e do ajuste. Onde o urso nos ensina o valor de sonhar, de entrar na introspecção, e como usar isso para a manifestação na realidade física.

O poder do Espírito do Oeste é a Introspecção, a Consolidação. A última colheita, quando para o crescimento e o esquema natural das coisas.
Humanos armazenam frutos dos seus esforços e também examinam a si mesmos para descobrir mudanças necessárias para progredir, quando o tempo de renovação chegar.

Entramos na Caverna do Urso, no lugar de introspecção e de escutar…

(fonte: site do Viavidya)

Além da chegada do Outono, as estrelas revelam o fenômeno de mercúrio retrógrado. Isso quer dizer que podem acontecer:

  • Falhas em equipamentos (computadores, telefones, etc).
    * Algo que possa causar transtornos no dia-a-dia, seja do trabalho ou com trânsito. Canais que podem ser interrompidos.
    * Greves, em especial em setores ligados a transporte ou comunicações.
    * Mensagens chegando incompletas ou com erros.
    * Mudanças de idéia em determinações oficiais.
    * Atrasos no dia a dia.

(fonte: site de Vanessa Tuleski)

Introspecção + problemas de comunicação. E talvez outras coisas, porque nunca vi tanta gente com problemas de saúde variados ao mesmo tempo. Não foi só aquela virosezinha típica de mudança de estação, aquela que serve à indústria farmacêutica. Eram coisas complexas, limpezas profundas, e pelo menos três integrantes de nosso pequeno grupo de cinco (incluindo Tatiana), por razões diversas, pediram tempo.

O que isso tem a ver com a peça?

E dá pra fazer teatro desconectado do seu tempo? Não. Palco não é museu. E de tantas coisas a filtrar entre as tantas notícias cotidianas, fiquei com essas duas, porque são também da época de Shakespeare, em que outonos também existiam, assim como os humores dos astros. Aliás, são eles que regem a peça desde o início, no prólogo-soneto onde conta-se que from forth the fatal loins of these two foes, a pair of star-cross’d lovers take their life.

E o texto é povoado por leituras estelares, intuições vindas dos céus. E mercúrio não é, também, Mercutio? E não é o drama disparado também pelas falhas de comunicação? Historicamente, todos os desentendimentos mútuos entre as famílias, cuja incapacidade de dialogar geraram o enrijecimento, terreno fértil para as tragédias. E depois, no tempo cronológico da peça, a história é repleta de personagens que não se escutam, mensagens extraviadas e a própria tragédia final se dá por um pequeno lapso de tempo (se Romeu esperasse mais um pouco pra tomar aquele veneno…)

Então, nessa semana, sem poder ensaiar, dediquei-me ao estudo da peça. Reli os teóricos já lidos, e foi grande a minha surpresa em descobrir coisas novas. Posso dizer sem medo de errar que essas horas passadas com os livros foram o melhor da semana. Ando cansada de máquinas (especialmente carros e computadores) e desse cotidiano doente e acelerado, então esse estudo me reporta a um tempo mais lento, a uma época em que nem se sabia que era a Terra que girava em torno do sol, e as estrelas eram um pouco mais que pontos reproduzíveis em planetários. Então regredi alguns séculos, ou talvez saltei dimensões – pois se o tempo é só uma forma de enxergar realidades simultâneas e sobrepostas, pode ser que eu também ainda viva, em algum lugar, ao lado das margens do Tâmisa. Lembro do que senti certa vez, estando lá no Globe, mesmo sendo apenas uma réplica: uma identificação estranha, certa alegria familiar e instigante, em plena Londres de 2006 que, para mim, era bem asfixiante.

Se o estudo desse texto é uma fusão entre mundos, o meu de agora e o daquela época, ou até mesmo no tempo em que Romeu e Giulietta eram de carne e osso, na Itália-berço dessa história, pode ser que Mercuccio morto tenha virado do avesso a comunicação daquele tempo quando, parece, era verão. E sendo Verona ou um palco, de alguma forma isso tudo me gera uma profunda identificação. Desde uma fresca memória de infância, em que vi o filme pela primeira vez. Ou talvez antes.

E peço aos céus que nos tragam lucidez e saúde. E que consigamos deixar morrer o que não mais nos pertence, por mais difícil que seja, para nos jogar no fluxo do que é vivo. Por mais que pareça suicídio. Para depois descobrir que suicídio não é buscar a morte, mas não querer nascer.

(talvez isso mude minha leitura do final (trágico?) da peça. assunto pra um outro momento.)

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