a parede debaixo da estante

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Hoje ela tentou cruzar os mundos. Deu com a parede.

A mesma parede que havia debaixo da estante do seu quarto, quando criança. Debaixo de uma prateleira branca de três estantes onde pousavam porta-jóias, bichos de pelúcia e pequenos enfeites. A última prateleira ainda ficava alta em relação ao chão, e formava com as bases laterais um perfeito quadrado vazio. Naquele vão, ali embaixo, havia uma promessa. Era um portal perfeito demais para que de lá nada saísse.

Ela bem que esperava que do nada abrisse uma porta, do nada surgissem seres. Morreria de susto, é verdade, mas então não seria mentira aquele lugar que mandava sinais há tanto tempo. Mas com os olhos de sempre, ela não viu, nunca viu, como jamais veria. Sua escola não ensinava ver além.

Agora, novamente, a parede. Foi até lá, esperou, e cadê? Deu com a cara no vazio só vazio. Talvez estivesse já chegando tão perto que o lado de cá tenha mandado exércitos de fadiga, de mentiras, de desilusão. Quem sabe? Ou poderia ser o calor pela falta de chuva, o sentimento de escassez do fluxo…Mas não, tudo desculpa. Esse lugar não é de agora, desse tempo, dessa estação. E se ela não rompesse o torpor, e  os nãos, e não se dignasse a ir até lá e ver, jamais saberia como romper essa casca. Ver onde a parede se formou pela primeira vez.

Ela ia precisar de uma dose de crença para começar. Colheria crença dentro da descrença?

Talvez no pico de desilusão tivesse semente de outro lugar. Não é do auge de alguma coisa que outra brota?

 

Chiara Fersini2

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