mulher: quem é você?*

   cênicas líricas

O que você vê é um corpo sem pontas, arredondado, pedindo por presença como um vaso, cheio de vazio, de futuro. Quem sou eu? Sou é silêncio. Um canto que vibra depois da última nota. Espreitando, entre as pedras, esperando na concretude para quando puder ser. E o tempo é agora, no auge da dureza do mundo. Porque eu broto do contrário.

Mas eu ainda estou nascendo mulher. Ainda tentando entender de corpo inteiro como é se jogar assim, sem o mínimo de resposta, no escuro. Sem vela. Porque também tem isso, sabe, a gente também pode ser a hora mais escura da noite, aquele segundo em que todas as estrelas piscam, então a gente também pode ser a pausa no respirar nas estrelas. Estou te dizendo, mas ainda não sei dessas coisas.

(…)

Vão te dizer
que a vida é guerra.
Que ela se enfrenta, se encara.
Com ela se luta.
Assim se tornam bravos, os homens.
Pois te digo: ela é boa.
A vida tem coisa de fêmea. Não se conquista ou domina.
Decifra-se.

 

* esse é um trecho da peça Jukebox, escrita para a atriz Alessandra Velho, recém-saída do forno, recém entrada em ensaio (dirigida por Lucienne Guedes), futuramente por aí, se os deuses assim quiserem.

Desde já um processo lindo, entre mulheres incríveis. Orgulho!

Nenhum comentário

Deixe uma resposta

%d blogueiros gostam disto: