você que aqui entra, abandone toda a esperança

   ô de casa!

hoje era inevitável: a dor ou o torpor.

do torpor meu saco já tava cheio. faz tempo que não posso mais com minha mente enevoada. meus dentes querem morder os cantos da boca se eles se abrem num sorriso falso ou resignado. há tempos que a indignação já bate à porta, mando passar amanhã e ela me acampa com a mão na maçaneta. hoje, rompeu a chutes. nem campainha tocou.

a dor é aquela que fingimos desconhecer. é um tipo de desatino que faz perder a compostura, vem montada numa cela de raiva, pelo menos comigo é assim. e as tantas e tantas coisas que de tão cotidianas já parecem os minutos de que são feitos as horas, de repente viram coisa intolerável. desde aquelas mais mínimas e idiotas, como o gato do vizinho que vem cagar no meu jardim – e eu sou obrigada a limpar – até todos os que cagam diariamente na minha cabeça, aí por opção própria, porque estão realmente cagando e andando pro alheio.

e então me pego com raiva de mim, por ficar reclamando da vida que (não é?) deveria ser boa. e faço da reclamação meu travesseiro. porque reclamar é permitido.

e por um acaso alguém reclama com a nuvem por ter coberto as estrelas? reclama com a chuva por ter desmoronado um barranco? reclama com o mar porque a maré subiu ou desceu? de que adianta? frente a uma força real, só tem uma resposta: agir.  mas as nuvens, as marés e as tempestades tem sua lógica. as coisas humanas não. e se a ação que me resta é protestar, isso não faz de mim um ser vivo. porque o ser vivo age, e colhe as consequências da ação. um ser que só protesta, espera. espera uma solução. espera justiça. espera um sinal que o mande agir em nome de alguma coisa. espera por deus.

hoje acordei sem paciência para essa esperança toda. aí entendi que quando os sábios falam que a esperança é a última que morre, é porque quando a gente não aguenta mais esperar, a gente finalmente age. sai do inferno. e  aí existe.

 

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