Bem que me avisaram do inverno

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Mas ainda era outono
E eu vivia cercada de ventos amarelos
Munida da certeza de resistir a tudo.
 
Bem que eu soube que não seria dócil
Mas meu peito era forte
Deflorei fronteiras cercas muros correntes
Enquanto a retina se embranquecia
 
Não será tão fácil, bradavam inúteis vozes
Cega, ainda ouvia, mas ignorava,
Retendo no sangue meus cacos em luta
Passo a passo entregue ao escuro desvario
 
(Obscuro sonho:
Um coro entoando uma canção dissonante.)
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.
.
 
Não, não é brinquedo
Conta-se do inverno
Que ele toma a fé de quem nele caminha
Mês a mês deixando
Pela travessia
Tecos de mil planos já esfarrapados
 
Não é nada claro
Disse, enfim, o guia,
Para o desespero de quem pede mapa
Deixe aqui na porta
Toda a esperança
Senha da guiança sem nenhum contrato
 
Sabe-se do inverno
que é uma temporada
longa noite inerte em tempo interrompido
horas congeladas
anunciam as perdas
minhas oferendas a um altar vazio
 
frente ao santuário
dura feito pedra
padecendo as penas de quem não se dobra
deixo, enfim, a paga
abro os dedos rotos
desço ao solo seco
largo a casca morta.
 
Nada vem em troca
(Não é esse o acordo)
.
.
.
 
Não resta palavra
fim de todo verso.
 
.
.
.
 
Des exista
.
.
.
até que não lhe sobre mais nenhum gesto
.
.
.
a casca que a serpente libera em nada conversa com a nova que se cria
.
.
.
Como pode o inexistente queimar tanto?
 
(libera)
mas os compromissos todos
(entrega)
mas as responsabilidades
(deixa)
mas a seda ínfima que sustenta a teia
(desfia)
 
Nada nada nada
Ao simples roçar de um controle solta
nada nada nada
desagua, evapora, desintegra, desatomiza.
 
Elétrons sem núcleo, sem próton, sem órbita.
Desmateria, liberta a luz.
E da potência errante, só dela, a vida reinicia o sonho-semente
até o próximo
.
dissolver

 

 

 

 

 

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