yes, nós somos bananas. on sale.

   crônicas ou coisa parecida

Em se plantando, tudo dá.
Oba! Então me dá!

Há algum tempo atrás, a relação mágica do homem com o mundo se dava no espanto com os fenômenos da natureza. Inexplicáveis, divinos, temidos. Hoje, mais esclarecidos, a relação mágica com o mundo é semelhante ao menino mimado que é cuidado por empregados: joga o brinquedo no chão, plim! Ele desaparece a reaparece na caixa! Suja toda a sala e plim! Ela renasce radiante e cheirosa! Estala os dedos e plim! Seu desejo é satisfeito! Quem disse que foram expulsos do Éden?

Pois bem. A combinação matemática do “então me dá” com a relação mágica com o mundo, bastante comum nas cabecinhas das poucas pessoas que detém o PODER DE DECISÃO, HOJE SINÔNIMO DE PODER ECONÔMICO, é a responsável por um fenômeno de cegueira que ameaça nossa Terra e nossa gente.

Mas voltamos ao nosso menininho: esse pequeno míope foi formando seu sisteminha de crenças básicas dessa forma. Ou seja, ele vê o mundo DESDE ESSE PONTO DE VISTA. Ele crê que as coisas são assim. Crê que o mundo é para ele, e a natureza, não à toa chamada de mãe, é uma fonte inesgotável de recursos.

Me dá! Me dá! Me dá!

Mas o menino se aborrece fácil. Ele é muito só. Nem com tantos empregados ele cura sua angústia… então ele se diverte. Há muita diversão por aí. Mas tudo movido a pilha! Então vamos produzir essa fonte energética, senão o mundo vai ficar sem graça! Está criada, pelo bem do planeta, a Pilha Corporation.

Mas vamos precisar dos rios, porque energia vem de algum lado, não brota da terra que nem batata! E agora, vamos brincar de mudar os rios de lugar? Canaliza aí uns três ou quatro! Faz barragem! Tá bom, vai inundar, mas fazer o que? Veado tem de monte no mundo, passarinho também! A gente precisa, senão dá apagão!

E vamos precisar das terras pra ter pasto pra carne. E vamos precisar das terras pra ter espaço pra soja e cana. Que tal tirar um pouco daquele mato inútil na Amazônia? Porque carro não anda sozinho! E o petróleo não é nosso, mas o etanol é a salvação do Brasil!

Mas deixa um pouco do mato, porque vamos precisar da Amazônia pra pegar umas plantinhas…porque não sei por que, não me sinto muito bem nesse planeta…um remedinho vai bem.

Me dá! Me dá! Me dá!
Ah, me esqueci… Ainda precisamos de mão de obra. Já descobriram que sangue, suor e lágrimas, juntos, compõem o combustível mais precioso do planeta: O humanol. E como sintetizamos o humanol? Emprego.

Perfeito. É a solução pra tanta gente que nasce por aqui se ocupar! As corporações de pilha oferecem emprego, muitos empregos, milhões deles. Pagam bem pouquinho, e em dia, o suficiente pra viver mais ou menos, e pra achar que a vida sem ele é pior. Diferente dos outros recursos inanimados, o humanol precisa de estímulo. Então dê a ele parte do Éden. Mas coloque no futuro essa parte, aí ele rende mais.

Agora, vamos dar nomes aos bois. Porque isso não é lenda nem brincadeira de criança. O ROUBO LÍCITO dos bens naturais DE DIREITO A TODOS OS SERES HUMANOS – pra não dizer de todos os seres vivos – tem seus responsáveis. Pessoas que, por herança da pré-história que AINDA vivemos, encontram- se com o poder de decidir por milhões de outras pessoas, sem ponderar os desejos e necessidades dessas mesmas. Apenas uma breve listagem desse rebanho:

– Vale do Ribeira: Grupo Votorantin, representado pelo ilustre cidadão brasileiro, o Sr Antonio Ermírio de Moraes, que insistem em construir a Usina Hidrelétrica de Tijuco Alto, que apenas beneficiará sua própria empresa, a CBA (Companhia Brasileira de Alumínio). E também a Multinacional Bunge (em Cajati) – poluição do rio Jacupiranguinha – apenas um exemplo do quão interessante será um pólo industrial na região. Mas os empregos…

– O Governo Federal , que adotou o discurso “desenvolvimento é tudo”, em ações como Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) , apoiando agronegócio, hidronegócio, transgeniconegócio e qualquer negócio que faça economista bater palmas e gente pagar caro. Alguns exemplos:

1) Apoiar a construção de três megahidrelétricas no Rio Madeira, o segundo maior rio da Amazônia. Junto, nossas amigas Odebrecht (17,6%), Furnas Centrais Elétricas (39%), Construtora Norberto Odebrecht (1%), Andrade Gutierrez (12,4%), Cemig (10%) e um fundo de investimentos formado por Banif e Santander (20%).
2) Combater o desmatamento com a magnífica idéia de dar a concessão de florestas públicas para exploração comercial sustentável, praticamente deixando lobos pastoreando ovelhas.
3) A controversa transposição do Rio São Francisco (cujo benefício para a população é apenas 4%)
4) Junto ao Governo do estado de SP, ampliação do Porto de Santos , além da construção do porto privado na Barra do Icapara, em Iguape, e do Porto Brazil, em Peruíbe , pela EBX (não preciso citar o impacto junto às comunidades caiçaras locais)

– Alguns de nossos funcionários públicos que governam em benefício do privado, como o Sr Reinhold Stephanes, ministro da Agricultura, o governador Blairo Maggi (PR-MT), maior produtor de soja do país, e o governador de Rondônia, Ivo Cassol, que apóiam indiscriminadamente o desmatamento e exploração da Amazônia. Mas são bem recompensados. Por exemplo, há uma expectativa do mercado de frigoríficos de investir, nos próximos dois anos, cerca de R$ 1 bilhão em Mato Grosso. Vamos precisar de pasto, não?

– Os governos anteriores, de Pedro I ao PSDB do FHC, que desde 1500 d.c já montaram a banquinha de vende-se bananas a preço de banana, e cultivaram com afinco o campo de impunidade que permite esses absurdos – em nome da ESTABILIDADE NACIONAL! HAHAHAHAHAHAHAHA

– Isso sem falar das corporações dos veneninhos para o bem-estar das lavouras: Monsanto, Bayer, Novartis-Syngenta, Du Pont e Advanta, com sua tecnologia Terminator (genes manipulados)

Para nosso azar, essa lista é muito maior. Esses exemplos servem quase para “tomar a parte pelo todo”. O buraco é bem mais baixo.

Para nossa sorte, a cegueira é contagiosa, mas não é total. Há muitos movimentos, redes, pessoas que dedicam suas vidas a evitar que esse desastre iminente aconteça. São pessoas que não acreditam na tirania vitalícia dos grandes grupos, que não se intimidam com o seu aparente poder. E que, mais do que nunca, precisam de pessoas que também possam se somar, não apenas “fazendo sua parte”, mas fazendo em conjunto a grande parte nos toca: evoluir da pré-história. Não apenas na tecnologia, não apenas gerando pilhas, mas abrindo a mente, compartilhando, vendo o planeta e todos os seus seres não mais como um “para mim”. Isso tem o seu tempo, mas já acontece agora. No tempo presente. Eis apenas algumas, de muitas “luzes no final do túnel” da nossa terra:

Movimento dos Ameaçados por Barragens – MOAB , Movimento dos Atingidos por Barragens (Nacional), Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem-Terra – MST, Conselho Indigenista Missionário – CIMI, Equipe de Assessoria e Articulação da Comunidades Negras do Vale do Ribeira – EAACONE, Coletivo Educador do Lagamar (Cananéia, Ilha Comprida, Iguape, Pariquera-Açu), Associação Rede Cananéia, Coletivo Jovem Caiçara, Partido Socialismo e Liberdade – Núcleo Vale do Ribeira, Movimento Humanista, AVV (Associação Vidas Verde), Rede MangueMar Brasil, Deputado Estadual Raul Marcelo, Comitês da Baixada Santista Contra Tijuco Alto, São Paulo Contra Tijuco Alto, Campinas contra Tijuco Alto, Instituto Socioambiental, Pastorais de Igreja Católica, Bispo da Diocese de Registro Dom Luís. Coletivo Alternativa Verde (CAVE), o Sindserve/Cobase, Rede Eco-caiçara, individualidades libertárias, membros do Centro dos Estudantes de Santos (CES), sindicalistas autônomos e anticapitalistas, ACPO – Associação de Combate aos Poluentes Orgânicos, Mongue – Proteção ao Sistema Costeiro, Instituto Brasileiro de Advocacia Pública (Ibap), Aldeia Indígena Piaçaguera, IDESC – Instituto para o Desenvolvimento Sustentável e Cidadania do Vale do Ribeira , Associação Rede Cananéia, Associação dos Moradores de Bairro Ariri, além de inúmeros ativistas independentes, comunidades indígenas, quilombolas e caiçaras por todo o país.

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