no gosto doce e amargo das coisas de que somos feitos

Direção: Nill Amaral

Temporada: Sesc Campo Grande, 2007 e 2008

Sinopse:

Peça inspirada no universo poético de Clarice Lispector. Escrita através de improvisações das atrizes junto a textos e adaptações de Claudia Pucci

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NO GOSTO DOCE E AMARGO DAS COISAS DE QUE SOMOS FEITOS

PRÓLOGO

 Os atores já estão em cena. (ainda são eles mesmos). No espaço, duas cadeiras ao fundo, uma mais à frente e outra na diagonal direita do publico. O que se vê no chão são alguns objetos, uma maquina de escrever na cor preta,  duas garrafas pet com água, uma batata, uma cebola uma xícara branca com um pires. 

 

ATRIZ 1  e ATRIZ 2 ocupam as cadeiras do fundo. As duas ficam de maneira a esperar o publico, percebendo a entrada e fazendo comentários baixos, entre elas (o publico não ouve)

ATRIZ 3 (Aline) olha fixamente por uma janela, enquanto toma um café e fuma um cigarro, ela esta um pouco inquieta, (mas não muito) O homem que aproxima do procênio, colocando uns textos próximos á  platéia onde ele lê alguma coisa. “ainda sabemos amar?

 

ATRIZ 1 levanta-se da cadeira, vai até a garrafa de água, pinga os dedos com água na testa, e faz o sinal da cruz e volta a sentar-se

ATRIZ 2 faz quase o mesmo, vai até a cadeira que esta à frente, e dá três toques na madeira (como sinal de proteção).

ATRIZ 1, que terminou de se benzer, aproxima-se  da platéia, fica de cócoras, testando um movimento de galinha.

Homem e ATRIZ 2 conferem alguns passos como se estivessem testando suas habilidades.  Abandonam a dança e voltam pra cadeira. 

 

ATRIZ 1 Engole o café da xícara que estava próximo e diz para os colegas de cena.

 

 

ATRIZ 1

Sabiam que podemos prever o futuro, olhando a borra do café? Minha avó tinha esse hábito, conhecia todo os segredos das pessoas que iam a casa dela e tomavam café.

 

ATRIZ 3  aproxima-se do procênio apaga minuciosamente o cigarro com a ponta dos pés (encara o publico) Volta para o centro do espaço

 

ATRIZ 3 (Aline )

(como se confessasse ao publico)

Quem não tiver medo de ficar alegre e experimentar uma só vez sequer a alegria doida e profunda terá o melhor de nossa verdade.

(pausa)

Sejam bem-vindos! Aceita um café?

ATRIZ 1

Minha vó me ensinou a ver o futuro aí. Quer saber o seu?

Servem café a alguém da platéia

 

ATRIZ 1

Deixe ver…seu futuro…(faz um suspense)…Olha, você tem dois caminhos possíveis…Um é por ali (aponta para a direita)…Não tem muitas pedras. Tem uma cachoeira linda, linda, uma vez que você chegue lá não vai querer sair mais. Muitos recursos materiais também.  Não tem muita gente, você não corre o risco de cruzar com pessoas desagradáveis. Nenhum grande amor, mas tem aqui um casamento bem sólido. Nenhum grande sofrimento, nenhum grande risco, é um caminho bastante seguro. Vida longa.

(pausa. Olha a reação da pessoa)

Agora esse outro (aponta para a outra direção)… Olha, não dá pra ver direito… Tem muito vento, é um caminho de muito vento. E muita chuva seguida de sol. Mas esse vento…não dá pra ver muito. Você é que sabe, se quer arriscar…

Atriz pega de volta a xícara. Olha para longe

 

ATRIZ 1

Um vento…Igual a esse. É raro ver um vento assim, suave e intenso. Dá vontade de sorrir. Já repararam que sorrimos em público do que não sorriríamos se ficássemos sozinhos? Eu, por exemplo, não gosto de rir de piadas, o que dificulta muito sentar numa roda com pessoas a certa hora da noite. Mas gosto de rir com o vento.

 

 

CAVALO SELVAGEM

ATRIZ 2

Eu gosto de rir quando eu chupo manga e fica aquele fiapo no meio dos dentes

ATRIZ 1

Eu gosto de rir quando eu vejo um cachorro chupando manga. Você já viu um? É uma coisa horrível!

ATRIZ 3

Eu gosto de rir quando eu vejo alguém com a roupa do lado avesso sem perceber

ATRIZ 2

Eu gosto de rir quando eu canto

ATRIZ 1

Eu gosto de rir no cinema vendo filme que todo mundo chora

ATRIZ 3

Eu gosto de rir no elevador

ATRIZ 2

Eu gosto de rir escovando os dentes

(podem ficar um tempo nesse jogo)

ATRIZ 1

Eu gosto de rir no banho

As três começam a brincar de pega-pega. O texto “cavalo selvagem” vai sendo dito nessa brincadeira, revezando entre elas. A cena vai num crescente.

 

ATRIZ 1

Existe um ser que mora dentro de mim como se fosse a casa dele, e é.

É um cavalo preto e lustroso, inteiramente selvagem : nunca morou antes em ninguém ou nunca lhe puseram rédeas nem sela .

OUTRA ATRIZ

Eu gosto de rir em enterros.

ATRIZ 3

Apesar de inteiramente selvagem tem por isso mesmo uma doçura primeira de quem não tem medo: come às vezes na minha mão. Seu focinho é úmido e fresco. Eu beijo o seu focinho.

Quando eu morrer, o cavalo preto ficará sem casa e vai sofrer muito.

OUTRA ATRIZ

Eu gosto de rir soluçando.

ATRIZ 2

A menos que ele escolha outra casa e que esta outra casa não tenha medo daquilo que é ao mesmo tempo selvagem e suave. Aquilo que não tem nome: é só chamá-lo e se acerta com seu nome. Ou não se acerta, mas, uma vez chamado com doçura e autoridade, ele vai.

OUTRA ATRIZ

Eu gosto de rir na frente do espelho

ATRIZ 1

Se ele fareja e sente que um corpo-casa é livre, ele trota sem ruídos e vai. Aviso também que não se deve temer o seu relinchar: a gente se engana e pensa que é a gente mesma que está relinchando de prazer ou de cólera, a gente se assusta com o excesso de doçura do que é isto pela primeira vez.

 

ATRIZ 3

Eu preciso confessar um segredo a vocês…

 

ATRIZ 3

Eu preciso confessar um segredo a vocês!

ATRIZ 3

Eu não sei como rir.

 

ATRIZ 2

(constrangida)

Eu também não.

ATRIZ 1

(constrangida)

Eu também não.

Tempo

 

ATRIZ 2

Mas a gente não estava rindo?

ATRIZ 1

A gente estava rindo?

ATRIZ 3

Não há tanto problema nisso. Pelo menos, no fim do dia, não corro o risco de me arrepender de ter sido idiota. Eu durmo bem assim, mesmo com a luz apagada.

 

 

OS OBJETOS

 

ATRIZ 1

Eu também preciso contar um segredo a vocês…a vida é normal… Nós mantemos esse segredo cada um diante de si mesmo porque convém, senão seria tornar cada instante mortal.

Eu não sei rir das coisas que morrem. Não sei rir das rosas, que morrem rápido. Mas gosto dos objetos.

O objeto cadeira me interessa. Eu amo os objetos à medida que eles não me amam! Essa cadeira, por exemplo, conseguem ver? (pergunta) Vou aproximá-la, para que vocês possam ver mais de perto. (aproxima a cadeira imaginaria para próximo da platéia. Pergunta quase concordando) não é linda? Foi da minha avó, e agora esta comigo. Essa estampa aveludada, macia… e esses grampos que cobrem a forração… eu acho de um bom gosto insuportável.

ATRIZ 2

O objeto porta me interessa. Essa porta, por exemplo, (pergunta) ela é concreta ou abstrata? Para mim ela é abstrata, esta sempre fechada, eu gosto de portas, essa em especial, essa fechadura, prateada, é FRIA , chega ser úmida, essa madeira parece ser OCA, agora ela se tornou concreta, oca e concreta,(respira) acho que também sou OCA.

Atriz 3 deita Homem no chão

 

ATRIZ 3

O objeto homem me interessa…

Ela começa a riscar o giz ao redor dele, fazendo seu contorno, enquanto fala

ATRIZ 3

Como pode uma pessoa decidir livremente o sentido da sua vida estando submetida às necessidades que se impõem a partir do próprio corpo?

Porque nosso vento está envenenado de crueldade… Conosco e com o objeto homem. Só porque não queremos ser pobres, sozinhos, doentes, só porque não queremos morrer sozinhos…

Ela termina o contorno ao redor dele.

O Homem levanta-se, e ela continua falando com o contorno no chão

ATRIZ 3

Lembrei -me de ti, quando beijara teu rosto de homem, devagar e quando chegara o momento de beijar teus pés, lembrei-me de que então eu havia sentindo o sal na minha boca, e que o sal de lágrimas nos teus olhos era o meu amor por ti.

 

MULHER 1 (e) GRAVADOR- Uma cena curta

 

Mulher 1 em primeiro plano, homem e mulher 2 em segundo plano. Os dois contrapõem a cena da mulher 1

A cena com os três personagens ocorre quase simultaneamente, e é finalizada com o homem em primeiro plano

MULHER 1

(testa um gravador mais de uma vez, em vão)

 

Tenta uma intimidade com o objeto, (testando sua voz) Oi, sou eu… Precisamos conversar, aconteceu uma coisa estranha comigo e eu preciso dizer isso a você. (ouve sua própria voz  e experimenta um novo tom . agora trêmula e cortante).

Olha, escuta!  O que eu te digo, nunca é o que eu te digo e sim, outra coisa.  Ontem, quando chovia muito e você veio à minha casa, eu mandei dizer que não estava. E eu estava!

Eu queria que você me olhasse nos olhos tão fundo como você me olhou naquele dia. Não é todo mundo que consegue se enxergar como é, a gente se imagina muito mais e melhor. Olho no espelho e não me vejo, não gosto do que vejo. (mais perturbada) que é que eu faço? Não estou agüentando viver, a vida é tão curta e eu não estou agüentando viver.

Não encontro uma resposta, quando eu me pergunto quem sou eu. Um pouco eu sei, sou aquela que tem a sua própria vida e também a tua.

 

RELATO COM O MENDIGO

 

Mulher I

Vou contar pra vocês um segredo, vocês são as únicas pessoas que saberão dessa história. Eu não saio contando coisas assim por aí, entende?

Era um dia comum, e meu lar era longe de casa. Na verdade, eu estava sem o endereço de mim mesma. Bússola na mão apontava pro norte, mas eu não sabia o que o norte dizia. A agulha rodava em torno do eixo, e eu, sem eixo, girava de pergunta em pergunta.

Trabalho? Ofício? Religião? Qual é o lugar no mundo reservado a quem não crê naturalmente mas quer, para não morrer em vida, acreditar sem ingenuidade?

Nunca me veio resposta…

Ah, sim…o segredo que eu ia contar….

Todos os dias, no caminho do meu quase lar, eu via um mendigo… um mendigo, que tocava gaita… Nesse dia, eu estava muito amargurada, mais perturbada que qualquer outra coisa, e no meio do trajeto, vi novamente aquele homem – o mendigo que tocava gaita – como fazia sempre, todos os dias! E riu para mim. Então eu ri para ele. Não sei o que me aconteceu, fui tomada por coisas que não saberia bem descrever, que não sei bem o que era no momento, comecei a me movimentar junto dele, dançamos sem parar… ele tocava a gaita e dançava, eu dançava com ele… Dancei descompassada, eu e o mendigo, como se algo me tomasse pelo meio, como se um vulcão de respostas estivessem próximas a mim, dancei ao vento, apressada, quisesse ou não quisesse o corpo sacudia inteiro como o corpo de quem ri, aquela sensação de morte a gargalhadas. Eu e ele, dançado, aquilo durou cerca de uns quinze, vinte minutos, tão depressa como o tempo da dança, comecei a andar, ainda meio tonta, mais depressa, agora sem pudor, tentando recolher, do meio fio, os andaimes da minha vida, parecia que eu tinha encontrado um súbito destino. Aí eu ria, e chorava.

De que rimos nós? Do nosso encontro que era de alegria. Não perguntei o nome dele, porque esqueci que mendigo tem nome, porque esqueci o nome de todas as coisas. Saí dali tomada por um desespero, mudei meu rumo, fui ter com uma amiga, a única que eu achava que podia me entender. Quando cheguei na casa dela, não contei o que tinha me acontecido.

Vocês entendem por que? Ela não entenderia! Ninguém entenderia! Seria folclórico! Exótico! Eu não queria que o asfalto ficasse cinza de novo, porque naquele dia ele era de diamantes…E eu, que não acredito em milagres e achava que tinha vivenciado um, tinha medo de ver meu ceticismo espelhado no outro no exato momento em que eu contasse essa história…

(Coloca as mãos na boca, assustada com a idéia da perda do sagrado. Faz como se tirasse algo de dentro dela, e fecha as mãos em concha, como se protegesse algo raro. Respira, aliviada)

Ainda está aqui…

Será que quando a gente conta um segredo ele se perde no tempo? Porque segredo contado deixa de ser segredo, mas que sentido tem guardar uma imagem que se não revelada pode virar areia na memória? Vou contar, então, posso? Posso confiar que vocês não vão me julgar pelo que fiz, ou pelo que senti?…

Naquela dança, eu tive um desejo…Um prazer sem tamanho, que só cabia nos limites da minha pele porque eu sentia o suor escorrendo, e eu quis beijar aquele homem, e eu quis experimentar um pouco mais daquele contato na pele da boca. Porque eu queria experimentar um pouco do que se pode ser quando não se tem função definida, nome definido, RG, utilidade. Eu sentia o desejo dele todo, de comer num beijo uma fração daquela possibilidade de simplesmente estar sendo sem nenhum sentido que não fosse apenas ser-se.

 

(pausa)

Eu só queria dar um beijo na liberdade para saber o gosto doce e inteiro do que se perde em míseros pedaços todos os dias…

 

Mulher 2

Qual seria o nome dele? José? João? Jonas? John!

 

Mulher 3

John, eu nunca esquecerei você. Porque nós fomos eternos naquele instante. Meu irmão. Você me deixou plena e útil.

 

Mulher 2

John, onde é que você dorme? Eu ainda não sou livre: preciso de uma casa e de uma cama para dormir. Eu não sei dormir na casa dos outros.

 

Mulher 3

John, num momento de muito desespero eu pedi a Deus que me arranjasse uma ajuda. E a ajuda veio: um homem me telefonou. Aí eu chorei ao telefone. Ele disse: não chore porque chorar enfraquece. Eu disse: mas às vezes é como a chuva que se precisa quando tem estiagem demais e tudo fica muito seco. Eu lhe pedi para me telefonar de novo às seis da tarde. Ele disse que não podia. Mas às seis em ponto me telefonou.

 

Mulher 1

John, o que a gente faz quando o que a gente mais quer acontece? Quando a gente pede pelo milagre, e ele chega? A gente fura os olhos? Recebe a luz que cega? Foi o que aconteceu com você, por isso mendigo, por isso na rua?

(ela abre as mãos, como se deixasse escapar o que continha ali)

 

Mulher 2

John, por que eu me surpreendi com nosso contato? Por que a gente se surpreende em conviver só por não saber o nome? Por que contando parece loucura se foi tão simples, tão simples, sorrir e dançar com você, John? Por que contando para eles agora parece pouco, parece bobagem, se na hora era só o que se podia fazer da vida?

 

Mulher 3

John, eu li que a angústia é a vertigem da liberdade. No entanto eu estou tendo essa vertigem, mas sem angústia, como é que se explica?

 

Mulher 1

 (para a platéia)

Era segredo. Não contei antes porque tinha vergonha…vergonha porque depois disso, continuei vendo mendigos sem nome, e se não fosse agora ter contado a vocês, tudo me pareceria absurdo. A vida é absurda quando ela acontece de verdade.

(Olha para a platéia, emocionada)

Acabou a cena que minha liberdade criou, estou triste. Não… Na verdade, eu estou bem feliz hoje: PORQUE VOCÊS ESTÃO AQUI.

CENA – CORRESPODÊNCIAS

 

Carta 1

Esperança – essa palavra tem povoado minha cabeça nas ultimas semanas. Por que eu me percebi com um medo enorme de acreditar.

É quase como um medo de desejar. Medo de um anjo ouvir e o desejo se realizar. Ao mesmo tempo, tudo que eu queria é que tudo fosse possível mesmo, nessa vida. E eu acho que é.

Mas tornar esse possível possível é como acordar de manhã na casa de um estrangeiro, não sei se terei coragem de simplesmente ir. É tão difícil se perder… É tão difícil que provavelmente vou arrumar depressa um modo de me achar, mesmo que isso seja de novo a mentira que vivo. Sabe, aquele pacto…O pacto com a mediocridade? É horrível, não? Mas é uma forma de sobreviver ao terror dessa luz. Um óculos de sol não adianta.

Falei muitas coisas nesse meu dia de hoje, coisas verdadeiras para as pessoas que eu amo. Disse das minhas frustrações, dos meus medos. Expus minhas fragilidades e minha força também, foi ótimo. Queria ter coragem mesmo de falar dos meus defeitos.

Eu disse que não queria mais fazer algumas coisas, disse muitos nãos, não, não, não. Nos chamei de covardes e tolos.

Me enchi de coragem e percebi que não tenho a menor condição de fazer algumas coisas agora, como por exemplo, tocar piano, trocar de carro, tacar um copo na parede, cantar uma musica que fala do fim do mundo.

Mas abracei meus amigos.

Eu eu não sou uma atriz, e se eu sinto dor, tenho que chorar. Me desculpe a fraqueza,  mas choro não se engole. Ele escapa pelos olhos.

Carta 2

Eu achei uma nova amiga. Mas você sai perdendo. Sou uma pessoa insegura, indecisa sem rumo na vida sem leme para me guiar.

Na verdade não sei o que fazer comigo. Sou uma pessoa muito medrosa. Tenho problemas reais gravíssimos que depois lhe contarei.
E outros problemas esses de personalidade. Você me quer como amiga mesmo assim?

Você me quer como amiga mesmo assim? Se quer, não me diga que não lhe avisei. Não tenho qualidades, só tenho fragilidades. Mas às vezes tenho esperança.

Sei, é ruim segurar minha mão. É ruim ficar sem ar nessa mina desabada para onde eu te trouxe sem piedade por você, mas por piedade por mim.

Sua mão na minha me deu a coragem de me afundar. Mas não procure me entender, apenas me faça companhia. Sei que tua mão me largaria, se soubesse…

Mas juro que te tirarei ainda viva daqui!

Você foi o meu melhor presente. Meu presente de aniversário foi você mesma aparecer, numa hora difícil de solidão.

Precisamos conversar. Acontece que eu achava que nada mais tinha feito. Então vi um anuncio de uma água de colônia da Coty, chamado imprevisto. O perfume é barato. Mas me serviu para lembrar que o inesperado bom também acontece.

Sempre que estou desanimada, ponho em mim o imprevisto. Me dá sorte. Você, por exemplo, não era prevista, e eu imprevistamente aceitei estar aqui, com você.

 

Carta 3

Peguei seu recado às duas horas da manhã de ontem, e tenho medo de saber o que nessas horas mudou no mundo. Será que você ainda está sendo?

A vida não estava fácil para você ? Não parecia…A gente constrói castelos na areia e se apaixona por eles, fica até menor para caber lá dentro, e se esquece de levantar a cabeça e olhar a linha azul entre mar e terra onde moram as curvas.  E esquece de olhar para cima e ler nas estrelas a forma dos caminhos que se cruzam. É uma teia invisível para se ver com os olhos de hoje, olhos avulsos, é o único jeito de ver o futuro e respirar de novo.

Desculpe minha ausência no momento do seu silêncio, eu pensava que você queria o vazio. Pensava ouvir você dizendo: “Não precise de mim, por favor!” Mas era você quem precisava…

É duro escrever sem saber se essa carta chegará a você. Estou sem coragem para saber. Queria te dizer o quanto você é perigoso…você me dá impulsos de viver, porque você sempre me livrou da culpa de estar viva. É perigoso o que a gente pode fazer nesse estado de poder ser…

Estou sem coragem de ligar para você, com medo de que…mas se for esse o caso, se você cumpriu sua promessa desesperada da madrugada de ontem, perdoe eu ter sobrevivido. Estou muito cansada…

As três atrizes preparam um tempero. Vão tirando, cebolas de uma cesta.

Há um recipiente onde vão colocando os ingredientes (pode ser algum objeto já utilizado em alguma cena anterior)

O homem descasca batatas

Mulher 1 sai com a cebola, inquieta. Ela vai minuciosamente, tirando camada por camada.

Aos poucos, ela dirige seu texto para o público. Carrega uma cebola com ela.

 

MULHER 1

Eu achei uma esperança. É uma palavra: POSSIVEL- essa palavra tem povoado minha cabeça nas ultimas semanas. Por que eu me percebi com um medo enorme de acreditar.

 

MULHER 2

Eu achei uma nova amiga. Mas você sai perdendo. Sou uma pessoa insegura, indecisa sem rumo na vida sem leme para me guiar.

 

MULHER 1

É quase como um medo de desejar. Medo de um anjo ouvir e o desejo se realizar. Ao mesmo tempo, tudo que eu queria é que tudo fosse possível mesmo, nessa vida. E eu acho que é.

 

MULHER 3

Peguei seu recado às duas horas da manhã de ontem, e tenho medo de saber o que nessas horas mudou no mundo. Será que você ainda está sendo?

 

MULHER 2

Na verdade não sei o que fazer comigo. Sou uma pessoa muito medrosa. Tenho problemas reais gravíssimos que depois lhe contarei.
E outros problemas esses de personalidade. Você me quer como amiga mesmo assim?

 

MULHER 3

A vida não estava fácil para você ? Não parecia…A gente constrói castelos na areia e se apaixona por eles, fica até menor para caber lá dentro, e se esquece de levantar a cabeça e olhar a linha azul entre mar e terra onde moram as curvas.  E esquece de olhar para cima e ler nas estrelas a forma dos caminhos que se cruzam. É uma teia invisível para se ver com os olhos de hoje, olhos avulsos, é o único jeito de ver o futuro e respirar de novo.

 

MULHER 1

Mas tornar esse possível é como acordar de manhã na casa de um estrangeiro, não sei se terei coragem de simplesmente ir. É tão difícil se perder… É tão difícil que provavelmente vou arrumar depressa um modo de me achar, mesmo que isso seja de novo a mentira que vivo. Sabe, aquele pacto…O pacto com a mediocridade? É horrível, não? Mas é uma forma de sobreviver ao terror dessa luz. Um óculos de sol não adianta.

 

MULHER 2

Você me quer como amiga mesmo assim? Se quer, não me diga que não lhe avisei. Não tenho qualidades, só tenho fragilidades. Mas às vezes tenho esperança.

 

MULHER 1

Falei muitas coisas nesse meu dia de hoje, coisas verdadeiras para as pessoas que eu amo. Disse das minhas frustrações, dos meus medos. Expus minhas fragilidades e minha força também, foi ótimo. Queria ter coragem mesmo de falar dos meus defeitos.

 

MULHER 2

Sei, é ruim segurar minha mão. É ruim ficar sem ar nessa mina desabada para onde eu te trouxe sem piedade por você, mas por piedade por mim.

 

MULHER 3

Desculpe minha ausência no momento do seu silêncio, eu pensava que você queria o vazio. Pensava ouvir você dizendo: “Não precise de mim, por favor!” Mas era você quem precisava…

 

MULHER 1

Eu disse que não queria mais fazer algumas coisas, disse muitos nãos, não, não, não. Nos chamei de covardes e tolos.

 

MULHER 2

Sua mão na minha me deu a coragem de me afundar. Mas não procure me entender, apenas me faça companhia. Sei que tua mão me largaria, se soubesse…

 

MULHER 1

Me enchi de coragem e percebi que não tenho a menor condição de fazer algumas coisas agora, como por exemplo, tocar piano, trocar de carro, tacar um copo na parede, cantar uma musica que fala do fim do mundo.

 

MULHER 2

Mas juro que te tirarei ainda viva daqui!

 

MULHER 1

Mas abracei meus amigos.

 

MULHER 2

Precisamos conversar. Acontece que eu achava que nada mais tinha feito. Então vi um anuncio de uma água de colônia da Coty, chamado imprevisto. O perfume é barato. Mas me serviu para lembrar que o inesperado bom também acontece.

 

MULHER 3

É duro escrever sem saber se essa carta chegará a você. Estou sem coragem para saber. Queria te dizer o quanto você é perigoso…você me dá impulsos de viver, porque você sempre me livrou da culpa de estar viva. É perigoso o que a gente pode fazer nesse estado de poder ser…

 

MULHER 2

Sempre que estou desanimada, ponho em mim o imprevisto. Me dá sorte. Você, por exemplo, não era prevista, e eu imprevistamente aceitei estar aqui, com você.

 

MULHER 3

Você, que faz esta terra infernal ficar mais suave, que nos faz sorrir e rir… Perdoe eu não ter procurado você para uma conversa entre amigos. Mas uma conversa mesmo: dessas em que as almas são expostas. Porque você tinha lágrimas também. Atrás do riso.

Mas agora não quero mais gostar de ninguém porque dói. Não suporto mais nenhuma morte de pessoas queridas.

 

MULHER 2

Juro que te tirarei ainda viva daqui!

 

HOMEM

Shhhhhhhh!!!!!!!!

 

MULHER 2

Você foi o meu melhor presente. Meu presente de aniversário foi você mesma aparecer, numa hora difícil de solidão.

 

MULHER 3

Estou sem coragem de ligar para você, com medo de que…mas se for esse o caso, se você cumpriu sua promessa desesperada da madrugada de ontem, perdoe eu ter sobrevivido. Estou muito cansada…

 

MULHER 1

Eu não sou uma atriz, e se eu sinto dor, tenho que chorar. Me desculpe a fraqueza,  mas choro não se engole. Ele escapa pelos olhos.

 

MULHER 3

Escuta…se eu ainda tiver tempo de te dizer uma última coisa…a vida é boa, acredite.

 

HOMEM

Como é que se pede?

 

MULHER 2

De novo, essa pergunta?

 

MULHER 3

A gente pede por aqui (aponta para o coração), no momento em que o ar da respiração enche o peito.

 

MULHER 1

E o que se pede?

 

HOMEM

Pede-se vida?

 

MULHER 2

É. Pede-se vida.

 

HOMEM

Mas já não se está tendo vida?

 

 

AS ESTRELAS, A AREIA, AS VISCERAS E O MAR

 

Duas atrizes, deitadas numa cadeira de cabeça para baixo, cabeça voltada para a platéia, como se olhasse um céu estrelado.

 

Ao fundo, Homem e Mulher- (vai depender) Homem coroa a mulher com tira de batatas e espalha pétalas de rosa pelo seu corpo, começando pelos cabelos.

 

Atriz II no recuo da cena espalha talco, com uma esponja, formando se uma nuvem, a mulher se sentira mais pronta para seguir o seu caminho.)

 

ATRIZ 1

Estrelas morrem, né? Acabam!

 

ATRIZ 2

Elas já estão mortas, na verdade. Algumas.

 

ATRIZ 1

Mas se a gente vê, não estão vivas?

 

ATRIZ 2

Lá onde elas estavam, já morreram. É a luz que chegou aqui.

 

ATRIZ 1

Tem gente que pede coisas pras estrelas

 

ATRIZ 2

Pede pra quem? Pra Deus?

 

ATRIZ 1

Pra estrela mesmo…Acho que se é possível essa comunicação distante, é que alguma coisa parecida com uma estrela tremula dentro da gente.

 

ATRIZ 2

Então o pedido é pra gente…

 

ATRIZ 1

A gente pede por aqui (aponta para o coração), no momento em que o ar enche o peito.

 

ATRIZ 2

Como é que se pede? E o que se pede? Pede-se vida?

 

ATRIZ 1

Pede-se vida.

 

ATRIZ 2

Mas já não se está tendo vida?

 

ATRIZ 1

Existe uma mais real.

 

ATRIZ 2

E essa aqui é o que então? Faz de conta?

 

ATRIZ 1

Mais ou menos isso.

 

ATRIZ 2

Mas se é faz de conta a gente pode ser o que quiser

 

ATRIZ 1

Essa vida que a gente é o que é não é faz de conta, essa é a real

 

ATRIZ 2

Então por que não é todo mundo que vive?

 

ATRIZ 1

Porque é tão livre que aterroriza

 

ATRIZ 2

Você é livre?

 

ATRIZ 1

Eu faço de conta que sou.

 

ATRIZ 2

Ah…

 

Atriz 1 (vai depender) levanta se primeiro, antes do termino do movimento seguinte, atriz dois levanta depois, atriz 1 começa espalhar areia pelo espaço, atriz 2 entra no jogo e a acompanha. Aos poucos, vai se configurando uma espécie de praia.

 

ATRIZ 2

Então faz de conta que as estrelas do céu caíram na terra como grãos de areia

 

ATRIZ 1

E faz de conta que cada grão de areia é uma esperança que a gente ainda pode colher

 

ATRIZ 2

E faz de conta que o amor verdadeiro existe

 

ATRIZ 1

E faz de conta que ele é possível

 

ATRIZ 2

Então faz de conta que a infância era hoje e prateada de brinquedos

 

ATRIZ 1

Faz de conta que eu amava e que era amada

 

ATRIZ 2

Faz de conta que quando eu fechasse os olhos seres amados surgissem quando eu abrisse meus olhos úmidos de gratidão

 

ATRIZ 1

Faz de conta que tudo o que eu tenho não é faz de conta

 

ATRIZ 2

Faz de conta que chove lá fora e, faz de conta que eu consigo sentir plenamente a alegria e a dor de estar viva

 

ATRIZ 1

Faz de conta que meu peito se descontraía e uma luz douradíssima e leve me guiava por uma floresta de açudes mudos e tranqüilas mortalidades

 

ATRIZ 2

Faz de conta que, pelo menos uma vez, a história contada do amor não é o desencontro, mas apenas o medo de viver a beleza que existe(espalha o talco com a esponja, mulher entra)

 

As duas atrizes olham para Homem e Mulher e vê a nova cena sendo configurada, e agora passam a narrá-los.

 

ATRIZ 2

Faz de conta que ela não era lunar, faz de conta que ela não estava chorando por dentro.

 

ATRIZ 1

Faz de conta que ele a esperaria com flores por toda a vida. E enquanto ela não viesse, ele trocaria as rosas murchas por frescas até a sua chegada

 

ATRIZ 2

E faz de conta que, para experimentar uma fração que seja desse amor, ela precisaria atravessar a noite de alma

 

HOMEM-

Seu amor que agora era impossível – era seco como a febre de quem não transpira, era amor sem ópio nem morfina. E “eu te amo” era uma farpa que não se podia tirar com uma pinça.

 

((O Homem tem uma agulha nas mãos, fura o saco de água varias vezes, configurando uma imagem de esguichos pela areia num gesto de assassinato e questionamento da vida e de si próprio))

(duas cadeiras são levadas, ocupando o plano da platéia, um espaço vazio qualquer)não sei se quero usar sempre a cadeira como elemento forte da cena, acho que não.

HOMEM

Vai doer

MULHER

Eu sei

HOMEM

Você não tem medo?

MULHER

Tenho

HOMEM

Quer mesmo assim?

MULHER

Eu tenho mais medo de outra coisa do que da dor

Mulher emociona-se, como se lembrasse de algo que não queria

 

HOMEM

Você pode confiar em mim

Homem aproxima-se dela. Ela, imóvel, observa-o, desconfiada. Ele, calmamente, traz uma cadeira para que ela se sente.

 

ATRIZ 1

Em breve ela teria que soltar a mão menos forte do que a que empurrava, e cair.

A mulher senta-se na cadeira. Ele, calmamente, começa a tirar um dos seus sapatos

 

ATRIZ 2

Ela tinha uma espécie de receio de ir longe demais. Sempre se retinha um pouco como se retivesse as rédeas de um cavalo que poderia galopar e levá-la Deus sabe onde. Ela se guardava. Por que e para que? Para o que estava ela se poupando? Talvez se contivesse por medo de não saber os limites de uma pessoa

HOMEM

Eu beijaria teus pés, se você quisesse

MULHER

O amor te pede essa submissão?

HOMEM

Você só se submete se vê o mundo com olhos de orgulho. Essa é a minha devoção ao mistério maior.

Homem, calmamente, acaricia os pés dela.  Ela, em um calafrio, levanta-se bruscamente, mancando

 

ATRIZ 1

Deus…se eu quiser escolher finalmente me entregar sem orgulho à doçura do mundo, então chamarei minha ira de amor. Tudo, tudo por medo de me prostrar aos Teus pés e aos pés anônimos do “outro”. Que rei sou eu, que não se curva?

MULHER

O amor te pede essa submissão?

HOMEM

Não me curvo a você, mas à vida que mora em você.

MULHER

Eu tenho medo

HOMEM

Eu também tenho

MULHER

Como é que o medo acaba?

HOMEM

Não acaba.

Homem vai até a mulher e pega a sua mão

 

HOMEM

A gente vai apesar dele.

MULHER

E como você enfrenta?

HOMEM

O medo a gente atravessa, ele passa pelo corpo como uma onda na orla… Mas antes precisa receber.

MULHER

Então eu aceito.

Ela senta-se novamente. Como se tivesse perdido uma batalha.

 

ATRIZ 1

Eu tinha nascido simplesmente e também simplesmente quis ir tomando para mim o que queria. E a cada vez que não podia, a cada vez que era proibido, a cada vez que me negavam, eu sorria e pensava que era um manso sorriso de resignação. Mas era a dor que se mascarava em bondade.

HOMEM

Aceitar não é se resignar. É a coragem de estar vivo.

MULHER

Eu não sei como estar viva.

HOMEM

É que você só sabe, ou só sabia, estar viva através da dor.

MULHER

É.

HOMEM

E não sabe estar viva através do prazer?

MULHER

Quase que já.

HOMEM

Então eu posso?

Ela consente. O homem, novamente, desce até seus pés

 

ATRIZ 1

Amar os outros é a única salvação individual que conheço: ninguém estará perdido se der amor e às vezes receber amor em troca.

ATRIZ 2

E ela amava o outro ser com a luxúria de quem quer salvar e ser salvo pela alegria. Porque a mais premente necessidade de um ser humano era tornar-se um ser humano.

O homem tira uma farpa dos pés da Mulher. Ela grita de dor, o saco com o peixe cai no chão, arrebenta e deixa escapar a água.

A mulher chora, finalmente.

 

MULHER

Eu só fingi…Eu fingi por orgulho que não doía, eu pensava que fingir força era o caminho nobre de um homem e o caminho da própria força. Eu pensava que a força é o material de que o mundo é feito, e era com o mesmo material que eu iria a ele. O mundo se queria comível, sim, mas para isso exigia que eu fosse comê-lo com a humildade com que ele se dava, mas mundo só se dá para os simples…

ATRIZ 1

Tenho que escolher entre amar ou ter ódio. Sei que amar é mais lento, e a urgência me consome.

 

HOMEM

Seu ódio é só um amor irrealizado. Seu ódio é uma vida ainda nunca vivida.

MULHER

A minha verdade antiga ainda me serve?

ATRIZ 2

Ah, se você entendesse que a fúria é contra os teus erros e não contra os dos outros, então esta cólera se transformará nas tuas mãos em flores, em flores, em coisas leves, em amor.

A mulher pega o peixe no chão, com carinho. Ergue-se, devagar

 

HOMEM

Eu te amo

MULHER

O que eu faço com isso?

O homem a abraça.

 

HOMEM

Eu te espero com flores. E quando as rosas murcharem, vou trocar por frescas, até que você apareça.

MULHER

Como eu posso ter certeza?

HOMEM

O que é? Para aprender a alegria você precisa de todas as garantias?

Mulher fica sozinha, com o peixe nas mãos

 

ATRIZ 1 

Quando ela pudesse sentir plenamente o outro estaria salva e pensaria: eis meu ponto de chegada. Mas antes precisava tocar em si própria, antes precisava tocar no mundo.

HOMEM

Ela contara por alto que um dia, ao escurecer, começara numa esquina a chorar de manso. Não havia ninguém por perto, e então ela começara a falar sozinha. “Deus, me ajude nessas trevas geladas que são as minhas!”

As duas atrizes começam uma oração, como uma ladainha. Esse texto pode ser intercalado com o da Mulher ou simultâneo a ele

Aos poucos, a cena vai ficando mais intensa.

 

ATRIZ 1 

Deus, alivia a minha alma, faze com que eu sinta que a morte não existe porque na verdade já estamos na eternidade,

ATRIZ 2

Faze com que eu sinta que amar é não morrer, que a entrega de si mesmo não significa a morte, faze com que eu sinta uma alegria modesta e diária,

ATRIZ 1 e ATRIZ 2

Faze com que eu não Te indague demais,

ATRIZ 1 

Porque a resposta seria tão misteriosa quanto a pergunta,

ATRIZ 2

Faze com que eu me lembre porque também não há explicação porque um filho quer o beijo de sua mãe e no entanto ele quer e no entanto o beijo é perfeito, faze com que eu receba o mundo sem receio, pois para esse mundo incompreensível eu fui  criada e eu mesma também incompreensível

ATRIZ 1 

Abençoa-me para que eu viva com alegria o pão que eu como, o sono que eu durmo,

ATRIZ 2

Faze com que eu tenha caridade de mim mesma pois senão não poderei sentir que Deus me amou,

ATRIZ 1 

Faze com que eu perca o pudor de desejar que na hora de minha morte haja uma mão humana amada para apertar a minha, amém.

MULHER

Cobre minha fúria com o Teu amor, já que também eu sei que a minha ira é apenas não amar, minha ira é arcar com a intolerável responsabilidade de não ser uma erva. Sou uma erva que se sente onipotente e se assusta.

Tira de mim a falsa onipotência destruidora, não deixa que a ferida que abriram em mim signifique ferida aberta por Ti, faz com que neste instante de escolha eu entenda que aquele que fere está no mesmo pecado que eu: no orgulho que leva à ira, e portanto ele fere assim como estou querendo ferir só porque não acredita, só porque não confia, só porque se sente um rei espoliado; ajuda aos que sofrem de ira porque eles estão apenas precisando se entregar a Ti. Mas como Tua grandeza me é incompreensível, faz com que Tu te apresentes a mim sob uma forma que eu entenda: sob a forma do pai, da mãe, do amigo, do irmão, da amante, do filho.

A ladainha se cala.

 

MULHER

Ira, transforma-te em mim em perdão, já que és o sofrimento de não amar.

Silêncio.

As atrizes terminam de arrumar a areia, e novamente voltam para a posição inicial, deitadas na cadeira de cabeça para baixo.

 

ATRIZ 1

Como é que se pede? E o que se pede?

ATRIZ 2

Pede-se vida?

ATRIZ 1

Pede-se vida.

A areia colocada configura um mar.

A Mulher caminha até ele.

Música

 

HOMEM

Deviam ser seis horas da manhã. O cão livre hesitava na praia, o cão negro. 

Por que é que um cão é tão livre?

MULHER

Porque ele é o mistério vivo que não se indaga.

HOMEM

A mulher hesita porque vai entrar.

Ela entra calmamente na água. Molha o rosto. Aos poucos, sua expressão vai ficando serena. Esse momento é de extrema sensualidade e prazer

 

HOMEM

Ela demora-se no banho para livrar-se de algo que nem sabia, nem por que estava. Ela se banhara na sua culpa, que tal como a areia do corpo, o sal lavava.

Era isso que estava lhe faltando: o mar por dentro como o líquido espesso de um homem.

Ela não está sabendo: mas está cumprindo uma coragem. A coragem é a de, não se conhecendo, no entanto prosseguir. E agir sem conhecer exige coragem.

((vai depender) o Homem, pega alguns peixes do saquinho, a mulher se coloca na platéia, agora como platéia mesmo, observa a cena que a sua liberdade criou.

 

MULHER

E quando notou que aceitava em pleno o amor, sua alegria foi tão grande que o coração lhe batia por todo o corpo. Um direito-de-ser tomou-a, como se estivesse acabado de chorar ao nascer. Como? Como prolongar o nascimento pela vida inteira? Foi depressa ao espelho para ver quem era e para saber se podia ser amada, mas ficou assustada com o que viu.

HOMEM

Parecia-lhe que sentindo menos dor, perdera a vantagem da dor como aviso e sintoma.

MULHER

Estivera incomparavelmente mais serena, porém em grande perigo de vida: podia estar a um passo da morte da alma, sem o benefício de seu próprio aviso prévio.

As Atrizes 1 e 2- retomam a atmosfera inicial.

 

ATRIZ 2

Aconteceu uma coisa muito louca comigo e eu preciso dizer isso a você…

ATRIZ 1

Aconteceu uma coisa muito louca comigo também

 

ATRIZ 2

Eu tenho uma amiga que tem um cachorro que late tanto e tão alto que já me deu vontade de latir de volta

 

ATRIZ 1

Apaguei a ponta do cigarro que já me queimava os dedos e cruzei as pernas suadas, nunca pensei que perna pudesse suar tanto. Nos duas, as soterradas vivas.

ATRIZ 2

Eu e você?

 

ATRIZ 1

Eu e um inseto

 

ATRIZ 2

Você sabe o que deve fazer alguém que não sabe o que fazer de si?

 

ATRIZ 1

Sei.

 

ATRIZ 2

O que?

 

ATRIZ 1

É segredo…

CHUVA DE ARROZ

 

MULHER

Perdi alguma coisa que me era essencial, e que já não me é mais. Não me é necessária, assim como se eu tivesse perdido uma terceira perna que até então me impossibilitava de andar mas que fazia de mim um tripé estável. Essa terceira perna eu perdi. E voltei a ser uma pessoa que nunca fui.

 

HOMEM

Então do ventre mesmo, como um estremecer longínquo de terra que mal se soubesse ser sinal de terremoto, do útero, do coração contraído, veio o tremor gigantesco duma forte dor abalada –E ela pensou que talvez essa fosse uma das experiências humanas e animais mais importantes: a de pedir mutuamente socorro e esse socorro ser dado.

 

CENA – DIÁLOGO COM DEUS

 

 

MULHER

Ah!  se eu sei Eu não nascia, ah se eu sei eu não nascia…

Mas eu denuncio. Denuncio nossa fraqueza, denuncio o horror alucinante de morrer- quero ser livre, e respondo a toda essa infâmia com a alegria. Puríssima e levíssima alegria. A minha única salvação é a alegria. Porque é cruel demais saber que a vida é única e que não temos como garantia senão a fé em trevas- porque é cruel demais, então respondo com a pureza de uma alegria indomável. Recuso a ficar triste.

Quem não tiver medo de ficar alegre e experimentar uma só vez sequer a alegria doida e profunda terá que o melhor de nossa verdade. Eu estou apesar de tudo, estou sendo alegre neste mesmo instante porque me recuso a ser vencida: então eu amo.

Mesmo o amor que não da certo, mesmo o amor que termina. E a minha própria morte e a dos que amamos tem que ser alegre, não sei ainda como.

Perdoe eu não ter procurado você para uma conversa entre amigos

Mas uma conversa mesmo: dessas em que as almas são expostas

Não, não quero mais gostar de ninguém porque dói.

Mas tem que ser. Viver é isto.Aliás não quero morrer. Recuso me contra Deus. Vamos não morrer como desafio?Não vou morrer, ouviu, Deus? Não tenho coragem, ouviu? Não me mate, ouviu?

Perdoe eu ter sobrevivido. Estou muito cansada.  

Porque é uma infâmia nascer pra morrer não se sabe quando nem onde. Vou ficar muito alegre, ouviu? Nós não somos culpados, é preciso entender enquanto estou viva, ouviu? Porque depois será tarde demais.

 

Priscilla( caminhou até a porta I que se abre em folhas, revelando um novo ambiente(esse se ascende com um globo que gira, enquanto ela mantém a porta aberta)

Eu vi uma coisa- Eram dez horas da noite, então eu vi uma rua que nunca mais iria esquecer. Nem sequer vou descrevê-la. Essa rua é minha, só posso dizer que estava vazia e eram dez horas da noite. Nada mais.

Eu fui germinada.

Aline- (caminhou até a porta II que se abre em folhas, deixando aberta)

Quer ver como continua esta noite? É difícil explicar- esta noite sonhei que estava sonhando. Será que depois da morte é assim? O sonho de um sonho de um sonho de um sonho?

Tudo acaba, mas o que te escrevo continua. O que é bom, muito bom. O melhor ainda não foi escrito, o que te escrevo continua e estou enfeitiçada. 

 

CENA FINAL- PREVISÕES NA BORRA DE CAFÉ

 

Momento anterior: cena diálogo com Deus. O globo pinta o chão de luzes. Os atores recolhem-se para perto da platéia.

Vê-se aparatos para fazer um café (se puder, com um fogareiro) e xícaras de porcelana

 

MULHER

Imagina se um dia todas as estrelas caíssem sobre a terra…

MULHER 2

Imagine que todos os pedidos realizados estariam aqui, nesse tempo-espaço, nesse agora já.

MULHER

O que seria feito de tanto pedido junto?

MULHER 2

O que aconteceria se todos os pedidos fossem realizados ao mesmo tempo?

MULHER 3

Você pediu o que, por exemplo?

MULHER 2

Eu nunca pedi. Quando eu pedi, não me deram.

MULHER 3

Então, sem você pedir nada, eu vou te dar um presente.

Acende um fogo

 

MULHER 3

É quase uma receita de cozinha…

Esquenta um café

 

MULHER 3

Em algum momento do dia ou da noite, aspira um pedaço de vento e leve ele até o coração. Então, pede com força ….

MULHER 2

Para quem se pede?

MULHER 3

Pro coração. É rápido, nem cinco minutos. Mas pede todo dia

MULHER 2

E o que acontece?

MULHER 3

Não posso contar. É segredo.

Começa a preparar para servir o café

 

HOMEM

Mãe, em que século a gente está?

MULHER

No XXI

HOMEM

Nossa, como a gente está atrasado!

Mulher começa a servir o café para a platéia. Depois de um tempo, é ajudada pelos outros.

Fala para a platéia

MULHER

Engraçado, não é? Viver não é brincadeira, em pleno dia se morre, em pleno dia se nasce. E você nasceu com esse olhar de estrela, de espécie diferente, com jeito de quem iria à lua num piscar de olhos. E foi. É quase um milagre olhar para você. A gente, vivendo, se esquece do sobrenatural que é estar vivo, de ser feito dessa matéria animada pelo invisível. Até ontem, você nem falava. Era só um olhar para o mundo, e foi nesse olhar inocente eu aprendi o que era o amor, o que era se dar a alguém. E como eu quis fazer de você uma rosa sem estufa, sujeito às intempéries, só te dei espinhos para ver se você os usaria. Os espinhos são o detalhe, sua alma é seu perfume. É aí que mora a sua essência, mesmo que encharcada de chuva.

Mulher 2 pega uma das xícaras de alguém

 

MULHER 2

Minha vó me ensinou a ver o futuro aqui. Quer saber o seu?

Mulher 2 dá a xícara à Mulher

MULHER

Eu confio em você. Porque naquele dia em que te vi chegar, aquele seu olhar de quem veio sem saber por que encheu meu coração de ternura. E eu me compadeci desse seu desalento, dessa solidão de estar aqui, e só pude dar a você o meu abraço. Como forma de dizer: Ei…eu também estou aqui…também sozinho, também com medo, mas mesmo assim…vivendo. vem comigo, que fica mais fácil…

MULHER 2

Será que eu posso te dizer?

MULHER

Você quer ir comigo? Pra onde?

MULHER 3

Mais café?

 

 

FIM

 

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