para você que me esqueceu

Direção: Dagoberto Feliz

Temporadas: Teatro Denoy de Oliveira (2007) e Opera Buffa, (2008)

Elenco: Gisela Milás, Ivan Kraut e Evelyn Klein

 

Sinopse:

Musical sobre a vida da grande cantora do teatro de revista Araci Cortes

para Ivan Kraut

(in memorian)

 

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Para você que me esqueceu

A chegada

 

Araci, com uma sombrinha,  equilibra-se em uma espécie de corda. Ela ameaça a cantar, a corda se rompe. Chega no palco num rompante.

Ruídos, sons. Caos. Vozes dissonantes. Radiofônicas. Sons da cidade. 78 rpm. Frases da peça, sons.

Desde o início se dá a relação com a platéia. O espaço da memória vai ser compartilhado com o público.

ARACI

Eu já falei que…

(corte)

Aqui é o Teatro Recreio? Que lugar é esse?

Segura a mala, observa o espaço. Há estranhamento, inclusive em relação à platéia . Ela caminha. Faz uma medição, dá uma sapateada num canto.

 

 

ARACI

Eu tenho a impressão … se não me falha a memória …

Ela olha para o público. Busca. Começa a se compor.

Vai até a mala, tira algumas coisas.

 

 

ARACI

Ahhh, disto eu me lembro … (para algumas jóias). E de vocês todas minhas queridas !!

Este! Que maravilha! Ganhei do…do… Quando eu gravei a …Será que foi ele? Só pode ser, ele tinha loucura por mim…

E esse … foi em 30?… Ih! Não lembro … Mas é lindo e …

Veste o colar e encontra dificuldade para fechar.

 

ARACI

Mas essa merda desse fecho nunca funcionou… Tem alguém aí pra me ajudar?

 

 

Araci olha para a platéia, procurando alguém que se ofereça. Logo se ofende pela demora de um voluntário, continua resmungando e olha para o escuro.

Surge uma girl.

 

 

GIRL

A senhora precisa de ajuda?

 

ARACI

Ih! Que é isso? Quem é você?

 

GIRL

Eu? Eu sou…

 

ARACI

(interrompendo) 

E o que você está fazendo aqui? Neste palco?

 

GIRL

Desculpe, mas a senhora não pediu ajuda? Eu vim ajudar…

 

ARACI

Agradeço, mocinha, mas eu não preciso da ajuda de ninguém…

 

GIRL

A senhora está se sentindo bem?

 

ARACI

Estou muito bem, e quero saber quem é você… Se não me engano … você … estou reconhecendo, mas não consigo dar nomes aos bois … ou às vacas, perdão.

 

GIRL

Olhe, minha senhora, eu sinto muito se a sua memória está fraca, mas eu trabalho aqui, sou cantora e …

 

ARACI

AH!! NÃO … CANTORA!… Quero ver, vamos ver, canta aí alguma coisa.

 

GIRL

Eu!? Agora?…

 

ARACI

Ih! Demorou, moça.

GIRL

Escuta aqui, quem a senhora pensa que é pra sair me dando ordens?

 

ARACI

Eu não penso que eu sou, mocinha! Eu sou!

 

GIRL

É o que?

ARACI

Eu sou… Eu sou…(irrita-se com a falta de memória) Eu sou o canto! A memória do canto! Eu sou um rouxinol! Eu sou…eu sou…A música, a voz dessa terra, a precursora, eu sou o sopro da…  É…a flauta!

Araci esquece da Girl e segue nas memórias. A Girl sai.

 

 

ARACI

E tinha…o seu Alfredo, lá no Catumbi, pai de quem? Pixinguinha ! O Pixinga ! (vai lembrando e recuperando a firmeza) Sou filha de brasileiro com espanhol e neta de paraguaio. Zilda de Carvalho Espíndola – com “ES”. (vira-se para onde estava a Girl) Eu sou uma mestiça terrível!…

 

 

Vê que a Girl não está mais no palco

 

ARACI

Quem eu penso que sou…Com 16 anos eu já era profissional! Pro-fiss-si-o-nal! E de circo!

Corajosa a menina, toda aprumada enfrentando aquele público imenso… Eu olhava aquilo tudo… De repente…

 

Luz na ARACI JOVEM, enquanto ARACI continua no escuro.

Uma figura surge atrás dela

 

 

ARACI

De repente, começou a me dar um negócio… Eu olhava aqueles palhaços, aqueles acrobatas voando, voando… E então eu não sabia se eles eram espíritos ou se eram reais…

 

A figura empurra Araci Jovem para um foco de luz

 

ARACI

(para Araci Jovem)

Vai menina…VAI !

ARACI Jovem desmaia.

 

 

ARACI

Vai menina! Levanta!

 

VOZ

Vá, cante e dance como você sabe. É pegar ou largar.

Araci Jovem ergue-se e começa a cantar uma versão do Guarani, de Carlos Gomes

 

ARACI

Eu fui…Desmaios, nunca mais!!!

 

Novos aplausos. Araci, feliz, agradece.

ARACI

Naquele dia, eu disse um sim. Podia ter ficado no escuro, mas tomei esse banho de luz que me encheu de coragem.

 

Araci vai até onde estavam as jóias, pega um anel e coloca-o no dedo, como se fosse uma aliança.

 

ARACI

(para o palco)

O SIM pra você, que eu conheço por cada medida. O sim pra cada momento de ser passarinho, ensaio de dia e glórias de noite. O sim pra você…Pra você, que me esqueceu…

Uma figura surge da platéia

ASSOMBRAÇÃO

Sua puta!

Araci, reativa, sai imediatamente do estado contemplativo e tenta ver de onde veio a ofensa

ARACI

Repete se veste calça!

 

A figura levanta-se, deixando-se ver

ASSOMBRAÇÃO

Puta! Flor do lodo! Mulherzinha de baixos costumes!

ARACI

Alguém aí tem um espelho pra esse rapazinho se enxergar?

ASSOMBRAÇÃO

O lar dessa aí é o botequim da esquina! É!..Ô dona, ninguém tá aqui pra ouvir queixume nem pra saber da tua dor não, viu?

ARACI

Pra você eu vou dar as costas

ASSOMBRAÇÃO

Faz isso sim, faça! Isso aí, ó, é teu pecado, a razão do teu sofrer! Depois se estraga e ninguém vai querer!

ARACI

Cala a tua boca, senão eu corto teu saco e enfio goela abaixo!

ASSOMBRAÇÃO

Tá certo, madama!

ARACI

A arte é uma missão divina, rapaz! Vê se te enxerga porque você não sabe com quem tá falando! Enquanto, às vezes, o meu lar está de luto, o teu está alegre por causa de minha pessoa. Da minha pessoa!

Som de tambores no ritmo de Aquarela do Brasil, de Ary Barroso

Araci segue no desabafo

ARACI

É isso aí, e de que adianta? Hein, terra de nosso senhor? Tô tentando aposentadoria e nada! Fala aí pras essas fontes murmurantes que não dá pra matar a sede só com água não, viu, a gente tem que sobreviver! Viu Ary, ô Barroso! Tá ouvindo? Alguém tá escutando? Que essa história de ser artista é isso aí, miséria pura! E tô reclamando sim, quem não quiser ouvir se ponha daqui pra fora, porque nesse teatro eu sou rainha! Eu sou…Eu sou…Tá ouvindo? Eu quero ouvir…eu quero ver…

A música vai se restringindo à batida do tambor, que se parece a um coração

Araci sente faltar o ar. A figura veste um jaleco de médico e vai até ela, checa seu coração.

ARACI

Eu estou com a vista ruim, doutor… É difícil visualizar

 

 

Olha para alguém da platéia

 

ARACI

Numa tarde, me olhei no espelho, e uma velha me olhou de lá…Que lugar é esse? Aqui é o teatro Recreio? Afinal, a que horas é o intervalo?

 

 

O batismo

 

Imediatamente, surgem duas figuras, como saídas de uma revista, num diálogo surrealista que mistura nomes das revistas encenadas por Araci e dados sobre sua vida.

 

FIGURA 1

Nós pelas costas. É sempre pelas costas, porque pela frente ninguém tem coragem. Chegaram pelas costas, fuderam pelas costas, agora taí, quem é que segura o tranco?

 

FIGURA 2

É tudo sonho de ópio sonhado à meia-noite e trinta, totalmente off side…

FIGURA 1

Dito e feito

FIGURA 2

Agora agüenta, Felipe! Agüenta pelas costas, os Forrobodó secos e molhados

 

FIGURA 1

Olha o Guedes!

 

FIGURA 2

O Balisa

 

FIGURA 1

Verde e amarelo

 

FIGURA 2

Fora do sério!

 

ARACI

Que coisa é essa?

As figuras percebem Araci

FIGURA 2

(para Araci)

Diz isso cantando!

ARACI

Eu canto na hora que eu quero!

FIGURA 2

Dá no couro, dá no couro!

 

FIGURA 1

 Comigo é na madeira

 

ARACI

Escuta aqui, mais respeito com minha pessoa!

FIGURA 2

Dá nela!

 

FIGURA 1

Eu sou do amor

FIGURA 2

E o palhaço, o que é?

 

FIGURA 1

 Rumo ao catete

Os dois começam a rodar em volta de Araci

ARACI

Vocês estão me enlouquecendo!

 

FIGURA 1

Cabeça de porco!

 

FIGURA 2

Salada de frutas

 

FIGURA 1

Flores à cunha!

 

FIGURA 2

Voto secreto!

 

FIGURA 1

Entra na faixa!

 

FIGURA 2

Banana nanica

FIGURA 1

O bode está solto

FIGURA 2

Lá vem a cobra grande

ARACI

De onde vem isso?

 

FIGURA 1

Você já foi à Bahia?

 

FIGURA 2

Eu vou pra Maracangalha

 

FIGURA 1

Bom cabrito não berra

 

ARACI

Pra mim chega!

Silêncio. As duas figuras param e olham para Araci, felizes.

FIGURA 2

Pra mim chega

 

FIGURA 1

1933

 

FIGURA 2

Em que teatro?

 

ARACI

A revista!

FIGURA 2

Teatro Revista?

A figura 1 olha ao longe

FIGURA 1

Uau! Uma nau!

 

FIGURA 2

É portuguesa?

 

FIGURA 1

E nós pelas costas!

 

FIGURA 2

Meu deus! Descobriram a gente

As figuras saem correndo, ainda gritando

 

FIGURA 1 e 2

A revista! A revista!

ARACI

É tudo revista. (apoteótica) Puta que pariu! O teatro de revista, meu Deus!

As figuras começam a tirar adereços da mala. Araci observa, como se vislumbrasse todo o sucesso vivido

 

ARACI

É disso que eu gosto…Canja de peru, banana real, café paulista, os quindins de yayá…Música, maestro!

Música: O Corta Jaca, de Chiquinha Gonzaga, seguido de uma miscelânea de outros ritmos que, aos poucos, vão crescendo em intensidade. Araci, feliz, olha para a platéia

ARACI

Tá tudo ali, intocável, no tempo…Tá tudo aqui, entocado, no tempo.

Deixa ela sair! Deixa!

O Gozo dos trópicos – nascimento da Vênus Brasileira

Pandeiro. Araci Jovem, feito boneca, vai surgindo. Música, batuque, trecho da bachiana no. 5, de Villa Lobos, trecho do Guarani, de Carlos Gomes, uma mistura de ritmos. Araci nasce, gloriosa, linda, como uma vênus. A cena é apoteótica

 

 

ARACI JOVEM

Me dá o teu bagaço, entorna o teu melaço sobre a minha terra que tem palmeiras onde canta o sabiáaaaaaaaaaaa…

 

A música continua, a cena vai em um crescente. Araci, encantada com sua própria criação, divide a emoção com a platéia.

ARACI

(na música)

Olha lá, olha ela, olha lá, olha ela, olha lá, olha ela…

ARACI JOVEM

Vem Colombo! Fecha as portas dos teus mares! Vem!

ARACI

Anunciou, é apoteose…

ARACI JOVEM

Vocês perdoem a imodéstia, mas eu sempre fui uma atriz perfeita

ARACI

Completa.

 

Entra um produtor, aplaudindo

PRODUTOR

Maravilhosa! Como é que se chama a mocinha?

 

 ARACI JOVEM

Zilda de Carvalho Espíndola!

 

PRODUTOR

Zilda? Isso lá é nome de artista? Não pega!

 

ARACI JOVEM

É meu nome!

 

PRODUTOR

Era. Agora é…Diz aí, um nome bem brasileiro!

O produtor vai até a platéia e pede sugestões de nomes. Araci fica contrariada.

Nessa brincadeira (por sugestão da platéia ou uma inspiração súbita), chegam no nome.

 

PRODUTOR

Tudo que termina em i tem cara de coisa de índio. Tá bom, muito bom esse aí, da terra! Que mais que combina?

ARACI JOVEM

Mas eu sou a Zilda!

O Produtor ignora Araci Jovem. Segue no divague do nome

 

PRODUTOR

Abacaxi, Catumbi, Juqueri, que mais com Araci? Precisamos de outro!de outro! O que é que combina, o que? Peraí, não tô vendo! Bota mais luz na platéia aqui, ô Cortes!

Araci vai ficando nervosa, o produtor continua impassível

 

PRODUTOR

Taí! Araci Cortes! Perfeito! Uma junção inigualável, pão com manteiga, arroz com feijão! Uma mestiça terrível, a maior de todas, a primeira misturada pura da terra sobre os palcos nacionais!

 

ARACI

Vai à puta que pariu! Eu sou o que eu sou e pronto!

O produtor transforma-se em um repórter.

Araci jovem volta também como repórter

REPÓRTER 1

Mário Magalhães, jornalista, crítico teatral de A Noite, garante: Araci Cortes é a nova sensação do Teatro Recreio

Ele puxa palmas da platéia

ARACI

Isso lá é jeito de rebatizar alguém? È tudo uma avacalhação!

Araci vai caminhando devagar em direção à mala, fingindo indiferença aos comentários

 

 

REPÓRTER 1

Figurinha petulante brasileira!

REPÓRTER 2

Araci Cortes é a primeira grande intérprete genuinamente brasileira da nossa canção popular!

Araci começa a gostar dos elogios e vai interrompendo o protesto

REPÓRTER 1

É a precursora de todas as modernas cantoras brasileiras!

REPÓRTER 2

Fez do samba uma força de brasilidade na marcha descolonizadora do teatro de revista!

REPÓRTER 1

Depois que Júlia Martins caiu na compulsória, depois que Otília Amorim se casou, o teatro-revista ficara sem a graça nacional…

REPÓRTER 2

Mas surgiu lá no céu mais uma estrela e apareceu Araci Cortes!

REPÓRTER 1

Em 1925, após ser esfaqueada pela namorada de Francisco Alves e atirada de uma muralha altíssima caindo em um colchão mal posicionado, foi obrigada a submeter-se a uma operação cirúrgica

 

ARACI

Quase me mataram, me arrebentaram o apêndice!

 

REPÓRTER 1

Quem é bom…

REPÓRTER 1 e 2

já nasce feito!

 

Araci tira um texto da mala.

Começamos a ouvir rumores de um ensaio

Ela começa a dizer, baixinho, um trecho de “Divorciadas” (Olegário Mariano). Enquanto ela ensaia, os repórteres continuam, simultaneamente, falando

 

 

ARACI

Livres da vida que passa

Nada temos que alegar

Somos os táxis da praça

À procura de quem nos queira tomar

Esperamos só que chegue o dia

De algum malandro gigolô

Tirando a sorte na loteria

Nos dê um lindo bangalô

 

 

REPÓRTER 2

O corpo de artistas era convocado para as dez horas e evoluciona, canta, rodopia até as doze…

 

REPÓRTER 1

Volta de novo ao teatro às treze e de novo salta, gira, canta e dança até às dezesseis e regressa às quinze

REPÓRTER 2

E trabalha até às dezessete, dezessete e meia

 

REPÓRTER 1

Tem duas horas escassas para jantar e tratar de seus interesses

 

REPÓRTER 2

Duas horas inteiras só para isso?

 

REPÓRTER 1

Às dezenove e trinta está de volta ao teatro para tomar parte nas duas sessões costumeiras e, às vinte e quatro horas..

 

REPÓRTER 2

Está exausto!

REPÓRTER 1

Sete dias por semana

REPÓRTER 2

Duas sessões por noite e vesperais às quintas!

 

REPÓRTER 1

Atenção: Ensaio da uma às três da manhã para a Premiere!

REPÓRTER 2

Ah, mas é tudo tão chique! Agora, com textos também em francês!

Assombros de revista

 

Araci, ainda tonta, começa a ensaiar “Tem Francesa no Morrô” (Assis Valente)

A cena torna-se uma espécie de cena de revista decadente. Enquanto Araci canta, os outros fazem um número de pernas.

 

 

ARACI

 

Donê muá si vu plé lonér de dancê aveque muá
Dance Ioiô
Dance Iaiá

Si vu frequenté macumbe entrê na virada e fini por sambá
Dance Ioiô
Dance Iaiá

Vian
Petite francesa
Dancê le classique
Em cime de mesa

Quand la dance comece on dance ici on dance aculá
Dance Ioiô
Dance Iaiá

Si vu nê vê pá dancê, pardon mon cherri, adie, je me vá
Dance Ioiô
Dance Iaiá

Araci, que a princípio canta feliz, começa a achar estranho o número. Continua cantando, mecanicamente, enquanto as figuras vão ficando cada vez mais bizarras.

Uma das figuras começa a mostrar a língua para ela, ou coisa parecida. O número vira um pesadelo. Araci continua cantando, agora para espantar o medo

 

 

FIGURA 1

Quem é você, criatura?

 

FIGURA 2

Nunca vi mais gorda!

 

FIGURA 1

Aliás, nem mais magra!

ARACI

Araci Cortes! A maior atriz do teatro de revista no Brasil!

FIGURA 1

Araci?

FIGURA 2

Cortes?

 

FIGURAS 1 E 2

Nunca ouvi falar!

FIGURA 1

Ou já ouvi e não sei que é?

 

FIGURA 2

Cadê sua meia?

FIGURA 1

Cadê seu salto?

 

ARACI

Onde é que eu estou? Onde?

FIGURA 2

No palco, horas!

FIGURA 1

Não conhece a própria casa?

 

ARACI

O que é que houve com a revista?

FIGURA 2

Ué, por que?

 

ARACI

Tá diferente!

 

FIGURA 2

Não era assim?

 

FIGURA 1

Não muda nunca!

ARACI

Mudou sim! Tá uma porcaria!

 

FIGURA 2

Esse país não muda nunca!

FIGURA 1

Tudo igual, desde 1500!

 

FIGURA 2

Aliás, quem é você?

Araci tem um rompante. Expulsa as figuras, como fantasmas, com um grito

 

 

O Palco, o pai, as taboas, a terra, o pixe, o amor, a boca santa

ARACI

O que eu estou encontrando, meu Deus? A memória guarda cada coisa que nem é só nossa! Onde é que eu estou? Onde?

Começa a ouvir uma flauta do seu pai, “o sopro embebido pela alma da menina”. Ela dança com o som da flauta, percorre o palco por um tempo, feliz.

Começa a afinar sua voz nela. Conversa com ele, num diálogo unilateral. Ouvimos só sua voz, o pai está ausente, o homem que se foi muito cedo.

ARACI

Pai? (pausa) Toca de novo, pai! (pausa) Isso… Peraí, vou aquecer a voz…

Canta

Ó, vou tentar mais uma vez! Tá certo, pai?

Canta

Toca mais uma vez! Toca aquela que eu gosto! Tá alto! Espera, pai! Me espera!

Araci, feliz, entra num divague aquecendo a voz. No seu devaneio, volta à sala de ensaio.

Os atores entram, cada um cantando uma versão diferente de “Linda Flor”, numa espécie de aquecimento vocal

 

ATOR 1

Vai, agora é pra valer!

 

ARACI

O que é que vale afinal?

ATOR 2

Com vocês, canção cantada para a Casa Edson, pela graciosa estrela brasileira Araci Cortes.

Araci  canta” Linda Flor” (H. Vogeler, Cândido Costa, Luiz Peixoto e Marques Porto)

 

 

ARACI

Ai, Ioiô
Eu nasci pra sofrer
Fui olhar pra você, meus olhinhos fechou
E quando os olhos abri, quis gritar, quis fugir
Mas você, eu não sei porque
Você me chamou
 
Ai, Ioiô
Tenha pena de mim
Meu Senhor do Bonfim pode inté se zangá
Se ele um dia souber
Que você é que é, o Ioiô de Iaiá
Chorei toda noite, pensei
Nos beijos de amor que te dei
Ioiô, meu benzinho do meu coração
Me leva pra casa, me deixa mais não

 

Araci emociona-se. 

 

ARACI

Deixa pra lá, deixa isso pra lá! Coisa velha, coisa velha, só coisa velha! Quem gosta de velho é trapo!

Pausa

É…Velhice é um privilégio que nem todos têm. Quem não morre tem que fazer idade.

 

Vai em direção à platéia

ARACI

Eu tenho a impressão…fala!

 

Busca, entre vários rostos da platéia, quem pode trazer suas lembranças. Busca, também, na memória do palco, batendo o pé no chão, como um sapateado.

 

ARACI

Quem é que sabe? Me conta? Como foi que…quem é que sabe, meu Deus?

Tenta lembrar outras coisas. Não consegue, desespera-se. Coloca os ouvidos no palco

 

 

ARACI

Fala! Você é quem sabe! Me conta?

Araci fica um tempo com os ouvidos no palco, tentando lembrar. Vai medindo cada canto do palco.

 

ARACI

É aqui. É no palco, nas tabuas. É aqui que tudo se prova…

Surgem duas figuras, uma delas Carmem Miranda. Começam o número “EH! EH!” (depois chamado  “Boneca de Pixe” (Ary Barroso e Luiz Iglésias)

Venho danado com meus calo quente
Quase enforcado no meu colarinho
Venho empurrando quase toda a gente, Eh! Eh!
Pra ver meu benzinho. Eh! Eh! Pra ver meu benzinho

Nego tu veio quase num arranco
Cheio de dedo dentro dessas luva
Bem que o ditado diz: nego de branco (Eh! Eh!)
É sinar de chuva. Eh! Eh! É sinar de chuva

Da cor do azeviche, da jabuticaba
Boneca de piche, é tu que me acaba
Sou preto e meu gosto, ninguém me contesta,
Mas há muito branco com pinta na testa

Tem português assim nas minhas água
Que culpa eu tenho de ser boa mulata
Nego se tu borrece minhas mágoa (Eh! Eh!)
Eu te dou a lata. Eh! Eh! Eu te dou lata

Não me farseia ó muié canaia,
Se tu me engana vai haver banzé
Eu te sapeco dois rabo-de-arraia, muié (Eh!, Eh!)
E te piso o pé. Eh! Eh! E te piso o pé
Da cor do azeviche, da jabuticaba
Boneca de piche, sou eu que te acaba
Tu é preto e teu gosto ninguém te contesta
Mas há muito branco com pinta na testa
Sou preto e meu gosto ninguém me contesta
Mas há muito branco com pinta na testa

O musical é apresentado apenas por cabeças atrás de um aparato. Araci, fingindo indiferença mas irritada com a presença de Carmem Miranda, come uma banana enquanto o número se desenrola. Ao final, joga a casca da banana na direção da dupla.

Carmem dá um gritinho e sai, ofendida

Uma figura grita

 

FIGURA

Araci, por que você não foi pros Estados Unidos igual à Carmem Miranda?

Araci, enfurecida, aproxima-se dele

 

ARACI

Porque ela deu o cu!

 

FIGURA

Nossa! Você não foi a maior de todas?

 

ARACI

Ah, quer saber? Bota no tijolo o que quiser, que eu sou de chita. Fiz meu nome com vestido de chita e rosa no cabelo, como é que eu vou me incomodar? E tem muita, muita gente que gosta!

FIGURA

(saindo do teatro)

Ô dona mestiça! Você está é com saudades de um tempo que já não é mais! Eu vou é embora que isso aqui tá com cheiro de mofo!

ARACI

Vai mesmo, vai embora, leva daqui esse despeito, ô seu merda! Dizem por aí que saudade é coisa bonita, tristeza é parte do samba. Pra que? Me diz aí, pra que tudo isso? Eu não! Carregar uma mala dessa? Daí eu chuto, chuto mesmo, a porta, a mala, essa maldita tristeza que parece que já nasceu agarrada no samba feito erva daninha, deixando tudo igualzinho enquanto o país se escangalha. Es-can-ga-lha!

pausa

Samba é a flor dessa terra, semente cravada no solo pisado que brota de teimosia. É muita petulância maquiada de malemolência, insubmissível! (pausa) Saudade…saudade, meu filho, é que nem fome. Só passa se a gente come a presença.

Pausa

Entra Araci jovem – cantarola “Os Rouxinóis”

Entra a figura de um compositor

 

 

COMPOSITOR

Boneca de Piche, Os Rouxinóis, cabocla cheirosa, chora, violão, chora que passa, é no toco da goiaba, esse mulato vai ser meu, gemer no violão, Lamartine babo, minha favela, minha pátria, Ary Barroso, Custódio Mesquita, Morena querida, Francisco Alves, Mulato bamba, Noel Rosa, mulata revoltosa, mulato bamba, pernas, pra que te quero, Luis Peixoto, João de Barro, Palhaço não chora, Na pavuna, Benedito Lacerda, Racho Fundo, que antes era na Grota funda, cruz-credo, quindins de yayá, salada portuguesa, salve-se quem puder, flor do lodo, sinhô, Henrique Vogeler, não convém, não quero mais saber de amor, Assis valente, alma da rua, no alto da serra, chora que passa, Ismael Silva, Luiz Iglesias, vai cumprir o teu destino, Arthur costa, quero sossego, cada macaco no seu galho, velha baiana, Pixinguinha!

 

ARACI

(começa a falar simultaneamente na metade do texto anterior)

Eles, meninos, nomes que antes eram apenas palavras desconhecidas escrevendo palavras-semente. E eu era a alma daquelas palavras para que elas viessem ao mundo. Alguém conhecia? Não! A boca santa cantava, paria cada letra daquelas, e elas povoavam os ouvidos daquela platéia maravilhosa…e os meninos viravam homens, compositores. E as palavras, juntas, viravam história.

pausa

Hoje a boca é outra. rádio, TV, nem é de carne nem osso, sem suspiro. E deixa a memória doente.

 

Araci jovem pára de cantar, e agradece.

O Compositor acaricia Araci. Lembra de uma frase dela, como uma memória feliz

 

ARACI

Vocês perdoem a imodéstia, mas eu sempre fui uma atriz perfeita, completa.

Vocês me perdoem a imodéstia, mas sou um sucesso perene.

COMPOSITOR

(para Araci Jovem)

Anunciou, é apoteose.

ARACI JOVEM

 “Que culpa eu tenho nisso?

Não sei por que feitiço

São tantos a querer…”

Araci jovem e o compositor começam a dançar, apaixonados. Aos poucos, ele tira sua camisa e a deixa sobre o palco.

 

ARACI

Muitos deles nasceram pela minha boca. Poucos deles brotaram como flor no meu peito confuso, feito do lodo limpo, mas turvo de medo do adeus.

Araci olha em direção à camisa deixada no palco, lembra-se do seu marido.

Ela vai até a camisa, dança com ela, enquanto canta “Moreno Faceiro” (Custódio Mesquita).

 

ARACI

Moreno Faceiro

Tipo bem brasileiro

meu sonho, meu ideal

por causa de um moreno desses

se eu padecesse, ó senhor

não me fazia mal

eu gosto de que quem eu goste

Não me ligue nem um pouquinho

e que não me faça carinho

nem que perto de mim se encoste

O casal se separa. Araci jovem torna-se a imagem do abandono. Talvez de si.

ARACI JOVEM

A minha alma, a minha vontade desagua doente

enferma enferma grita e desdiz a morte

Vem! Sente!

Esse vapor gelado pelos dentes

sente…

a urgência de não esperar permissão

Vem! Ó frágil reprimido

vem e afasta o perverso da submissão

Aceita o que é puro, mesmo que pareça devasso

recusa o que é pudico, mesmo que pareça sensato

 me deixa assim entregue a deus

me deixa assim como deus me fez

me deixa ser seu lavapés

me deixa ser seu louva-deus

despe-se em meia-noite de lua

no meio da noite do medo

antes do amor me pegar pelos dentes

me cuspir no infinito

E gozar na minha cara.

Te amo tanto, meu amado!

Te amo!

ME AMA!

ME DÁ, DESESPERADAMENTE, ME DÁ AMOR!

Em que momento, me diz, me esqueci lá atrás,

como uma mártir acorrentada num labirinto sem volta?

Sinto que estou secando

Em calmas ondas cristalinas…

 

ARACI

(cont. Música)

Eu gosto que ele não goste

que me arranhe, seja ruim

Ai, eu gosto que ele não goste

nem um pouquinho de mim assim

Moreno dos olhos tristes

que seduz toda mulher

tu não sabes que existe

neste mundo quem te quer

embora tu não mereças

seja falso e traidor

ai, moreno dos olhos tristes

és meu rei e meu senhor

 

Uma figura masculina entra pelo fundo do palco,com um manto nas mãos e uma rosa.

Ele abraça Araci, e veste nela um manto(fica com uma imagem de santa) e uma rosa no cabelo.

 

ARACI

Você veio, meu beguém! Você não poderia deixar de estar, meu anjo barroco. Quanta saudade, minha estrela do mar…Ah! Meu João amor, me sinto pisando em esmeraldas, não sou eu quem me navega, quem me navega é o mar…Me ama Titã, me ama e me mastiga os ossos como um desbravador malsã!

 

A figura canta para Araci “Senhora Rainha”  

A cena transborda um grande carinho dele por ela

 

HOMEM

As estrelas do chão dos seus olhos

Senhora Rainha, eu quero beijar

Que já tarda esta noite, ó senhora

rainha da rosa bordada de sol

E a lua espreita no céu

debruçada no mar

esperando você

Nós queremos colher

e depois ofertar

essa rosa de ouro a você

Esse é o tempo

da mais rósea primavera

dos gorgeios

dos mais lindos rouxinóis

Esse é o tempo

ó senhora majestade

de olhar todas pedras no chão

E a chuva

que escorrer vai pratear

todos campos

onde houver uma esperança

e quando outra

primavera despontar

outra rosa de ouro virá

O homem afasta-se, calmamente, tomando distância da cena.

Tudo se transforma quando entra a música “Rosas de Ouro” (gravação do Show). Araci agradece, emocionada.

 

 

Eu te odeio, Linda Flor

Da platéia, uma figura volta a assombrar Araci

 

FIGURA

Me fala uma coisa, ô dona: Tá se achando a ave maria do morro, é?

ARACI

Você já não tinha piado fora daqui, ô espírito de porco?

 

FIGURA

Calma aí, dona Araci! A senhora tem um nome a zelar, senão fica de castigo e depois ninguém se lembra! Um pouquinho de doce nesse azedo cai bem, sabia?

 

ARACI

Que mentalidade…essa gente precisa ler um pouco de espiritismo pra saber o que é a vida. Tudo é efêmero, não vale nada!

 

FIGURA

Ei! Agora vai posar de evoluída? Vai dizer que não quer ficar pra memória? A maior atriz do teatro de revista!

Entra outra figura. Começam novamente a ciranda atordoante, num surto de rótulos

FIGURAS 1 e 2

(alternando)

a insuperável

a inigualável

inefável

infalível

invencível

indizível

indescritível

insubstituível

impossível

terrível

indecente

malemolente

mestiça

mulata

misturada

assanhada

desejada

cariboca

sem mãe

sem pai

caraíba

brasileira

guerreira

pioneira

faceira

brejeira

gostosura!

Quanto vale?

Que nome combina?

Irascível!

Aracível!

Araci, novamente, espanta os fantasmas com a voz

ARACI

Eu não sou! Eu não fui mártir, eu não sou símbolo, não fui vendida, nem rotulada, nem esquecida, nem inventada, nem descoberta, nem fui levada, abandonada, não sou um mito, não sou um tipo, não sou memória, não sou patente, não sou artigo, nem definido, não sou mais nada! De resto, é problema meu, não vendo, não troco, não dou. Sou Zilda de Carvalho Espíndola, feita Araci pela graça do tempo. De mim, você só tem o meu canto, que é feito de nota, que é feito de vento. E ninguém segura.

 

Araci jovem entra no palco. A cena é parecida à do nascimento de Araci, como se ela retornasse àquele momento

ARACI

Essa é minha melhor memória. Tem gosto de manga madura.

Araci Jovem começa a cantar. Aos poucos, vai sentindo a voz falhar.

Araci, numa súbita mudança de humor, começa a xingá-la

ARACI

Eu não preciso de ninguém! Eu não preciso de ninguém! Eu te odeio, Linda Flor! Você é uma despreparada, incapacitada, chita vestida de nada, a culpa é sua! O que? É, a culpa é sua, só sua, sua! Sua…Sua o que?

Araci Jovem começa a ficar sufocada e cai, desmaiada, como Araci na primeira vez no palco.

Araci aproxima-se dela, ainda raivosa. Da raiva, sobrevém uma estranha ternura e ela a segura em seus braços, como uma Pietá.

Araci levanta-se. Sua figura é frágil, despojada, entregue.

 

 

ARACI

Araci. Não. Linda Flor. É assim que sempre foi. É assim que vai ficar.

Araci Jovem pega os adereços de Araci e transforma-se em uma figura parecida à que entra no início da peça. Olha para o palco, despedindo-se dele, reconciliada. Sai.

ARACI CORTES (GRAVAÇÃO)

Nasci artista, nasci sambista

e até hoje não me arrependi

Público amigo que não me esquece

quem te agradece é Araci

Os meus sucessos contigo estão

e os teus aplausos no meu coração

hei de morrer como nasci

sempre cantando, sempre Araci

 

Enquanto ouvimos a gravação de Araci, a atriz olha em direção à platéia, sorrindo. Como Cabíria.

Agradece a platéia e sai

 

 

FIM

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