desmonte:a grande obra

Texto: Claudia Pucci e Cia. De Domínio Público

Direção: Juliana Monteiro, com Cia. De Domínio Público

Temporada: Teatro da Vila e Coletivo Fábrica, 2007 e 2008

 

Sinopse:

Em algum momento do futuro em uma cidade fictícia, uma empreiteira é contratada para um projeto de modernização. É iniciada uma grande obra na cidade, e em pouco tempo as pessoas não mais conseguem voltar a suas casas. A prefeitura inicia, assim, um grande programa de remanejamento social, que leva às últimas conseqüências. Inspirado nos absurdos cometidos pelas obras da cidade de São Paulo, especialmente na “limpeza urbana”realizada no Largo da Batata e no episódio da cratera do metrô da linha amarela.

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DESMONTE – A GRANDE OBRA

 

PRIMEIRO ATO

O INÍCIO

CENA 1 – O Lançamento

Enquanto o público entra, vemos várias porta-bandeiras com propagandas de lançamentos.  Elas inovam no visual: patins, fogos de artifício na boca, malabarismos.

 

Uma coreografia das bandeiras ao ritmo de samba recepciona o público, que recebe uma credencial: CIDADÃO VIP; ALL ACCESS

 

O desfile logo vira um daqueles coquetéis assépticos, com musiquinha ambiente.

PUXA-SACO

Senhoras e senhores, cidadãos da nova cidade, é chegado o momento que tanto esperamos…Graças ao esforço conjunto dos milhares de construtores dessa grande obra, temos o prazer de chamar aqui um homem excepcional…Não, ele é mais que um homem, ele é um visionário empreendedor, que ousou um sonho impossível e moldou esse sonho tijolo por tijolo…senhoras e senhores, tenho a honra de receber ninguém mais que Sr. Matarratos, o homem acima de qualquer limite!

Pede aplausos à platéia

Ao invés do Sr. Matarratos, um homem com carinha burocrática entra em cena. Cochicha algo no ouvido do puxa-saco

PUXA-SACO

Senhoras e senhores, o Sr Matarratos disse que esse momento histórico não pede mais louvações a pessoas físicas. Esses são novos tempos , em que todos somos um! Por isso, em nome da Desmonth Corporation, eis o seu Porta-Voz.

O porta-voz começa a ler o discurso de forma burocrática e monótona

PORTA-VOZ

Prezados cidadãos da nova cidade: É com muito orgulho que a Desmont Corporation, inaugura o maior empreendimento de todos os tempos…

Algo estranho começa a acontecer, as luzes começam a piscar. Todos ficam apreensivos. O porta-voz conserva sua frieza

PORTA-VOZ

Não há motivo para medos, senhoras e senhores. O programa de erradicação dos focos periféricos foi concluído com eficiência, e esses são apenas incômodos provisórios que serão devidamente pulverizados.

Os problemas começam a piorar.

O porta-voz logo retoma, sem deixar o incidente tomar grandes proporções

PORTA-VOZ

Já vivemos tempos piores, Lembram? Não? Bem, então, por aqui…

Aparece uma figura esquisita, uma cigana, que logo é retirada de cena por um policial, enquanto profetiza

CIGANA PROFÉTICA

Olha, a cidade está faminta, e ela come os seus sonhos!! Vamos todos morrer, virar comida de verme, osso que ninguém rói, roupa que ninguém veste, privada que ninguém defeca, lâmpida sem mariposa. Essas coisas solitárias da vida. Olha, a cidade está faminta.

FASE 1: AS PRIMEIRAS MUDANÇAS E DESAPROPRIAÇÕES

CENA 2 – Três trabalhadores estranhos

Três operários sentados lado a lado

Um está com um óculos de proteção, outro com um fone de ouvido de proteção, outro com uma máscara na boca. Fazem uma figura semelhante aos três macacos, “Mizaru” (o que fecha os olhos), “Kikazaru” (o que tapa os ouvidos) e “Iwazaru (o que veda a boca).

Todos retiram seus instrumentos de trabalho e abrem uma marmita

MIZARU

Ando ouvindo que vai melhorar

KIKAZARU

Eu ando vendo outra coisa

MIZARU

Vamos fazer o que, então?

KIKAZARU

O negócio é escolher um lado e pegar a parte que te cabe. E eu vou escolher casa térrea, porque do jeito que vai a coisa, em cinco anos, já ó (faz um sinal negativo)

Kikazaru começa a rir

MIZARU

Você não acredita?

KIKAZARU

Tem escolha não, Mané! As partes, pelo que ouvi, já foi tudo dividido.

MIZARU

Eu não vi nada disso.

KIKAZARU

Mas tem coisa que ninguém vê. Acontece de noite

MIZARU

(para Iwazaru)

Você viu alguma coisa?

KIKAZARU

 (para Mizaru)

 Você ouviu alguma coisa?

MIZARU

Pra falar bem a verdade, eu ando muito confuso. Pois não é que eu ando ouvindo vozes? Diz que tem gente indo prum canto que ainda não foi dividido, um lugar fora do mapa.

KIKAZARU

Eu, hein… Olham para Iwazaru, que olha longe

Esse, tá assim desde ontem. Não fala nada!

MIZARU

O que é que ele tem?

KIKAZARU

Viu o Zé caindo da viga.

MIZARU

Será que é isso? A gente cansa de ver acidente na obra e não fica assim!

KIKAZARU

Diz que ontem ele subiu lá no topo da estrutura e ficou olhando a cidade. Já tinha até urubu fazendo bolão se ele pulava ou não, mas ele ficava lá, olhando. Até que ele suspirou fundo, como se tivesse nascido naquela hora, deu uma gargalhada esquisita e voltou a trabalhar.

CENA 3– Wilson das Ervas

Numa praça, duas bancas, uma a do Wilson das Ervas e a outra a do Churrasquinho no Espeto. Transeuntes passam e compram suas mercadorias. Aparecem fiscais da Prefeitura que retiram os ambulantes e os realocam em outros lugares. A ação se repete algumas vezes até que os ambulantes são retirados definitivamente.

Um dos compradores das pílulas do Seu Wilson entra em surto mental. Seus “neurônios” iniciam um diálogo dentro de sua cabeça.

Neurônio 1 – Ué? Cadê?

Neurônio 2 – Cadê?

O “diálogo” entre os neurônios acaba se tornando uma espécie de música industrial, que mistura sons de construção com demolições.

 

Inicia-se uma coreografia com o CORO DE TRABALHADORES. No estilo “os escravos de Jó”, mas sem cantar a musiquinha. Eles, que antes trocavam as banquinhas de lugar, agora começam a trocar os pontos de ônibus.

 

Dessa coreografia ficam os personagens para a próxima cena

CENA 4 – No ponto de ônibus

Num ponto de ônibus, duas mulheres e um homem aguardam o ônibus que não chega nunca.

Eles estão esperando há um tempão, aproximadamente, 3 horas.

MULHER 1

Tá difícil, hein?!

MULHER 2

É…

MULHER 1

Não é possível!

Entra um mendigo arrastando um saco de coisas. Olha para as duas. Mulher 1 interrompe o protesto, receosa. Ele as encara e depois vai para um canto na calçada.

Elas ficam em silêncio, desconfortáveis com a figura. Ele, começa a jogar com o medo delas. Encara as duas, depois olha para o outro lado. Em seguida, encara-as de novo. Depois de um tempo, Mulher 1 não se contém mais.

MENDIGO

Vai passar ônibus não…

MENDIGO

Não vai passar, viu! Não vai passar! Eu não sou autoridade, mas te aviso: Não vai passar!

MULHER 2

Ignora, não dá trela!

MENDIGO

Tão bonitinhas as mulheres de Olaria do Nino esperando o onibuzinho que não vai passar! Tem uma que eu até convidaria pro meu cafofo aqui! Você mesmo aí! A outra é muito novinha! Não deve ter nem pelinho…rsrsr

MULHER 1

Olha, “meu senhor”, você está passando dos limites. Nós estamos cansadas, trabalhamos o dia inteiro. Quer saber o quê? Eu não tenho que te dar explicação, não! Seu… seu… MENDIGO!

MENDIGO

Tá perdida? Chama a mamãe…(mostra um tijolo) Fala daqui, ó, do me celular!

MULHER 1

É, não sou filha de chocadeira, como o senhor.

MENDIGO

Quer saber o que? Vocês não vão voltar pra casa porque não tem mais casa! Eu tenho a minha casa aqui, ó! E vocês vão me implorar para entrar nela daqui a pouco, podem escrever! Vocês estão cansadinhas? Porque não tomam um banho pra relaxar ? Aliás  tão precisando mesmo, porque já estão fedendo. Eu vou ajudar vocês  . Toma aqui o seu banheiro Oh ! rssss.(joga um pedaço de tijolo em direção às mulheres). Depois e um banho gostoso porque vocês não vão comer alguma coisa quentinha lá na cozinha! Cadê a cozinha?  Ta aqui a cozinha de você! Depois de comer, relaxa um pouquinho na sala de estar! Toma aqui a sala de estar (joga tijolo ) Ah !Eu tava esquecendo.  Assistir Tv também é bem gostoso depois de um dia de trabalho! Toma aqui a sua Tv de Prasma.E aproveitando desejo a vocês uma boa noite se sono, toma aqui sua caminha macia e cheirosa.

 (ri).

O mendigo acerta uma fruta podre em Mulher 2. Ela, que até agora estava contida, vai para cima do mendigo jogando de volta os tijolos, completamente histérica.

Mulher 1 avista um policial e vai chamá-lo

MULHER 2

Toma o seu banheiro, a sua sala, a sua cama! Seu animal! Seu inútil! É por isso que tem gente que taca fogo em subgentinha assim como você!

MENDIGO

(rindo, enquanto se defende das pedradas)

Só não vê quem não quer, minha senhora

A cidade vai devora todo mundo.

A cidade está faminta

E ela come gente

E ela come casas, ruas e avenidas

E ela come os seus sonhos

Mulher 1 volta com o policial

POLICIAL

(para o mendigo)

Que palhaçada é essa por aqui? Circulando, circulando!

(para as mulheres)

O ponto mudou.

O policial vai empurrando o mendigo, que segue profetizando, numa espécie de epifania. As duas saem, revoltadas

MENDIGO

É a terra com fome de casa! É a terra com fome de gente!

E não vai sobrar mais nada.

CENA 5 – Moça perdida e o policial

Mulher encontra um policial gigantesco. Tenta chamar a sua atenção. Grita. Gesticula. Joga um objeto na sua direção

MULHER

Ei, ei, ei!

Ô mooooooço! Moço! (tímida)

Ele avista a mulher

MULHER

Você sabe onde está a Rua Silveira Pinto?

POLICIAL

O quê?

MULHER

Rua Silveira Pinto. O Senhor sabe onde ela está?

Policial faz uma cara de quem não entende direito o que ela fala

MULHER

Ontem ela era logo ali atrás (gesto parecido ao do policial, mas para outro lado)

. O senhor sabe pra onde ela foi parar?

POLICIAL

(Num esboço de humanização)

Ah, a Rua Silveira Pinto?

(olha num livrinho de notas)

A Rua Silveira Pinto já é parte do programa de remanejamento das vias urbanas. O quarteirão está sendo desapropriado e os moradores realocados. A senhora faz parte dessa categoria. portanto…Isso não é uma gravação: Dirija-se ao Muro de Contenção Humana à esquerda.

MULHER

Não, seu guarda, você não está entendendo: Eu não quero ir para o Muro.

POLICIAL

A senhora é que não está entendendo. Vou tentar ser mais claro: (mecânico, silábico)

“A Cidade está passando por um caos provisório, por favor, dirija-se ao Muro de Contenção humana à esquerda! Há riscos de desabamentos e explosões”

MULHER

Se você não sabe informar então…

POLICIAL

(cortante)

Muro de contenção humana à esquerda!

MULHER

Eu não quero ir para muro! Eu quero ir pra minha casa!

POLICIAL

(incisivo)

Muro de contenção humana à esquerda

MULHER

(Ação)

Ela vai saindo, mas o policial se coloca na sua frente.

POLICIAL

(incisivo)

Muro de contenção humana à esquerda

Ela tenta sair pelo outro lado, mas ele repete a ação.

POLICIAL

(ameaçador)

Muro de contenção humana!

Ela sugere que vai perguntar algo. O policial faz apenas um gesto para ela indicando o muro. E ameaça ir para cima dela de novo. A mulher, assustada, sai.

CENA 6 – Coro de trabalhadores mascarados

Surge um coro de trabalhadores mascarados, que entra em cena com uma coreografia de construções.

Ouvimos o coro dos trabalhadores (que pode ser uma imagem de várias bocas projetadas em vídeo simultaneamente à coreografia da construção).

 

A coreografia vai tomando um ritmo de samba.

CENA 7 – A Obra e a Classe média: História de Dona Clô ou a senhora desenraizada

NARRADOR

D.Clô era uma senhora franzina, católica, moradora de um bairro classe média a 50 anos.

O sonho se D.Clô era trocar os azulejos de sua cozinha.

Todo mundo que passava que passava em sua janela poderia ouvir a canção

DONA CLÔ

Azul,azul lejinho não quero parede e meia

NARRADOR

Neste bairro acontecia uma reforma.

Certo dia D.Clô recebeu um telefonema de sua amiga também moradora do bairro.

Olá, Clô você ficou sabendo que o engenheiro da obra vai visitar as nossas casas para reparar aquilo que foi danificado.

D.Clô ficou abaladíssima com a notícia viu nela a possibilidade de trocar os azulejos. Um sonho de muitos anos. A cada explosão uma angustia e torcida pela queda do azulejo. Quem passava em sua janela não ouvia mais a canção e sim uma pequenas palavra:

DONA CLÔ

Cai,cai,cai

NARRADOR

Foi então que recebeu outro telefonema da mesma amiga

AMIGA

Olha Clô, o engenheiro vai te visitar amanhã

NARRADOR

D.Clô não se conteve. Pegou a caixa de ferramentas e, com uma machadinha, começou a quebrar todos os azulejos da cozinha (cantava e quebrava) parecia uma velhinha ensandecida.

Sentou em sua formosa cadeira de balanço com sorriso maroto e aguardou o engenheiro.

O engenheiro chegou curto e grosso:

ENGENHEIRO

Minha senhora, a sua casa está com problemas na estrutura e dentro de dois dias ela poderá desabar, portanto a senhora será removida para um hotel de onde ficará aguardando notícias.

NARRADOR

A velhinha católica entrou em choque, feito as estátuas da santa missa.

Paralisou, foi removida para o hospital

Do hospital para o hotel

Do hotel ao cemitério.

FASE 2: O INÍCIO DO CAOS E A REESTRUTURAÇÃO DA NOVA ORDEM SOCIAL 

CENA 8 – Desalojamento

Entra uma prostituta. Olha para a platéia, sedutora.

Começa a tirar suas peças de roupa, como se estivesse despetalando uma flor. Fala como se estivesse contando sua história

 

PROSTITUTA

Bem me quer, mal me quer…

Bem me quer, mal me quer…

Bem me quer, mal me quer…

Aos poucos, as outras prostitutas entram, fazendo a mesma coreografia.O palco vai ficando cheio de peças de roupa.

 

Aos poucos, elas vão ficando apreensivas, como se esperassem uma notícia ruim.

 

Eis que a notícia chega. Elas recebem a notícia e reagem com desespero.

(Nesse momento, aparecem no telão imagens de Desalojamentos de Sem-Tetos nos prédios abandonados da Capital.)

Em 5 segundos as meninas juntam as suas coisas e saem correndo da repressão policial.

CENA 9 – Plantão Jornalístico 01

A dupla de âncoras parece um tanto divergente quanto ao tratamento dado à notícia. O primeiro dele é um entusiasta das mudanças, enquanto o outro adota um tom mais irônico/sarcástico. (No clima de abrir e fechar o jornal).

ÂNCORA 1

O caos provisório recentemente decretado pela prefeitura está mudando a cara da cidade.

ÂNCORA 2

O programa de remanejamento populacional avança firme, e bairros inteiros já foram implodidos.

ÂNCORA 1

Limpos! Diversas crateras e buracos foram abertos em nome do bem-estar social!

ÂNCORA 2

Questionados sobre as crateras, o governo e a Desmonth Corporation batizaram esta primeira etapa de “Período lunar que antecede o raiar da nova cidade”.

ÂNCORA 1

Parte da população já foi transferida para os primeiros condomínios Série ouro, o único lugar seguro do caos provisório, aonde só se chega de helicóptero.

ÂNCORA 2

Enquanto isso, a outra parte, aproximadamente 99%, aguarda instruções

ÂNCORA 1

E a população pode acompanhar o passo a passo das obras pelos televisores instalados nos abrigos provisórios!

PATROCINADOR

(narrador irônico)

Há tempos ansiada nos mais belos rincões dos sonhos da humanidade, está oficialmente iniciada a nossa Sociedade Ideal.

PATROCINADORA

Mas se você está desconfortável em seu abrigo, pode fazer parte da Nova Cidade através do novo programa público de remanejamento social. Seja você também um buráquio e descubra o aconchego de viver no útero da terra! Inscreva-se no programa das novas moradias populares: “O buraco é a solução!” (aponta para o chão)

CORO, VINHETA, ETC

O buraco agora é a solução

PATROCINADOR

Alimentação…

PATROCINADORA

Moradia…

PATROCINADOR

Emprego…

PATROCINADORA

Diversão…

PATROCINADOR

TV a cabo…

(todos ficam babando, como quando se lembra de algo mto bom)

PATROCINADORA

O Éden abaixo da terra!!! Peça já sua transferência para nossos Gold Holes Plus!!!

PATROCINADOR

Basta apenas prestar serviços voluntários!

PATROCINADORA

Folgas aos domingos!!!

CORO, VINHETA, ETC

O buraco é a solução!!!

Gold Holes Plus!!!

CENA 10 – CIGANA E O ARQUITETO

Entra uma figura estranha, uma espécie de cigana. Ela fala uma linguagem cifrada

ARQUITETO

Boa tarde…boa noite…eu vim pra…

CIGANA

O senhor tem dúvidas?

CIGANA

Quer saber o que?

ARQUITETO

É… bem… estamos empreendendo um projeto bastante grandioso

CIGANA

Sei.

ARQUITETO

Um projeto que tem tudo para dar certo!

CIGANA

Sei.

ARQUITETO

Um projeto que vai mudar completamente a nossa concepção de uma organização social, política, econômica…

CIGANA

O senhor veio me consultar ou fazer propaganda?

ARQUITETO

Quem nunca sonhou com um lugar limpo, em paz, finalmente, onde nós poderíamos simplesmente viver?! Não foi para isso que nascemos, para viver bem? E por que, meu Deus, nunca tínhamos conseguido isso? Finalmente, eu entendi! Era falta de organização! Então idealizamos nosso sonho! E agora ele está aqui, acontecendo! Os planos estão corretos. O projeto anda bem… A população anda colaborando… O poder executivo está executando muito bem as etapas… Esse é um projeto perfeito, entende? Uma obra de arte! É a realização de tudo aquilo que sonhávamos quando ficávamos presos em um congestionamento… Quando, na rua, víamos a pobreza brotando das calçadas…

CIGANA

E qual é o problema, então? O senhor quer que eu preveja o que o senhor acha que esqueceu de prever?

ARQUITETO

Isso! A senhora adivinhou meus pensamentos!

CIGANA

Eu não adivinho, eu vejo.

Pausa.

Ela olha profundamente para ele, que fica incomodado.

Ela faz um gesto para que ele se sente na sua frente. Começa a ler a cabeça do arquiteto, como uma bola de cristal

CIGANA

Eu vejo…

Ela começa a fazer uns sons meio cantados, meio palavras balbuciadas, até que se entende alguma coisa

CIGANA

Gavião, gavião, gavião, gavião…

Abre-se a terra em terremoto provocado

É pior que tsunami

É buraco com cimento

Todo mundo foi jogado…

Submersa, submerso…

a vontade soterrada

  fluxo retornado

socado pra dentro do ventre,

postura contrária ao que reza a vida,

a vida, ferida, no fototropismo,

que tenta saída por cima de novo,

o cima, concreto, não deixa saída,

a vida, ferida, irrompe o concreto…

A massa, tremenda, contida na terra

não pede, mas toma, o espaço perdido

tal qual como rio que fora aterrado

um dia irrompe a casca do ovo

e ri dos que tinham outrora vencido…

A cigana volta do transe, meio assustada com o que viu.

O homem espera uma resposta. Ela recobra a calma

CIGANA

São duzentos reais.

ARQUITETO

Como assim? Você não me disse nada! Só um monte de palavras sem sentido!

CIGANA

O seu entendimento do que eu vi não é parte do meu trabalho. É seu.

ARQUITETO

Então me fala claramente! Eu esqueci de alguma coisa?

CIGANA

O senhor está se esquecendo de escutar!

ARQUITETO

Pois eu não vou pagar por isso!

CIGANA

O senhor vai pagar sim! Pode ter certeza!

Logo, ela é envolvida pelo CORO DO TREM, que volta em uma coreografia

CENA 11 – Coreografia do trem – Coro de Trabalhadores 02

Um coro de trabalhadores passa

CENA 12 – A Obra e a classe média baixa – A História de Dona Marli

NARRADOR

Eu vou contar a história de Marli, uma quase vítima. Ela quase esteve presente quando uma cratera gigantesca engoliu cerca de 7 pessoas desavisadas, que, dentro de uma van clandestina, insistiam em se mover pelos arredores da cidade. Mas, segundo ela, justamente, Graças a Deus, por não ter dinheiro, ela foi salva.

Agora, sente-se uma pessoa privilegiada. Já pleiteou até uma vaga especial na igreja que freqüenta, pois agora crê ser uma verdadeira enviada de Deus na Terra.

Marli agora peregrina de buraco em buraco contando a todos o milagre de sua salvação.

MARLI

Naquele dia eu tinha uma consulta no médico. Tive que sair mais cedo do trabalho. Por isso acordei mais cedo

“DEUS AJUDA QUEM CEDO MADRUGA”.

Não sei por que, mas enquanto trabalhava não me cansava de louvar a Deus, era como se a graça se apossasse do meu ser e eu dentro de mim, clamava com alegria ao Senhor.

Não embarquei naquela van, pois ouvi a voz de Deus me soprando no ouvido – Sai daí, Marli, Sai daí, Marli!

NARRADOR

Ela não gosta de comentar que não tinha dinheiro para a condução, que o seu vale já havia acabado e que ela tinha pedido uma força ao cobrador depois de lhe explicar o seu drama e o cobrador, com medo da fiscalização, não pode ajudá-la. O jeito era sair e pedir um dinheirinho a algum cidadão de bom coração.

MARLI

Deus havia de ajudar!

NARRADOR

Quando ela ficou sabendo do acidente e identificou que ela seria uma ocupante daquela van, bendisse a ignorância do cobrador e a ausência de dinheiro para pagar a condução, e pensou:

MARLI

Deus escreve certo por linhas pobres! Tortas!

NARRADOR

E desde então costuma contar essa história.

A partir desse episódio prometeu que não iria reclamar de mais nada! E mais agradecer ao Senhor por fazê-la pobre, pois se tivesse dinheiro, hoje estaria debaixo da terra. Para ela, tudo eram bênçãos para os que acreditavam em Deus!!! E se a desgraça atingiu a outros é porque não tinham fé suficiente ou tinham dinheiro para pagar a sua condução, o que dá no mesmo para ela! Dessa história, Marli retirou um poema que não cansa de repetir:

MARLI

Deus, do dragão fez lagartixa

Se cortam o rabo, ele se regenera

Vai com Ele! Tenha fé!

Do buraco nós escapa.

CENA 6 Coreografia caos do trânsito e nova ordem social

Personagens estão dentro de seus carros, estáticos como uma fotografia.

Irritadíssimo, 2 Muito Cansado, 3 Zen pero no mucho.

Ao som da buzina, os personagens quebram estado estático

No auge da briga surge um policial apitando. Ouve-se uma sirene.

POLICIAL –

-A cidade está passando por um caos momentâneo, há risco desabamentos e explosões. Todos devem se dirigir ao muro de contensão humana à esquerda.

-Pertences pessoais devem ser deixados no portão 1

-Maiores de 18 anos devem se dirigir ao portão 2

-A cidade está passando por um caos momentâneo, há risco desabamentos e explosões. Todos devem se dirigir ao muro de contensão humana à esquerda.

-Portadores de doenças crônicas, de coração, fígado, rim. Necessitando de medicamentos e acompanhamento médico, devem se dirigir ao portão 3

-Maiores de 60 anos se dirigir ao portão 4

-É proibida a entrada portando, armas, material cortante, pontiagudo ou que possa produzir ferimento, devem ser deixados no portão 5

-A cidade está passando por um caos momentâneo, há risco desabamentos e explosões.

-Cidadãos poliglotas devem se dirigir ao portão 7

-Vegetarianos devem se dirigir ao portão 8

-A cidade está passando por um caos momentâneo, há risco desabamentos e explosões.

-Pessoas com estatura menor a 1,40m devem se dirigir ao portão 9

-Albinos, claros e portadores de olhos de cor azul devem se dirigir ao portão 10

-Usuários de álcool e demais dependentes químicos devem se dirigir ao portão 11

-A cidade está passando por um caos momentâneo, há risco desabamentos e explosões.

Telão: OS SURDOS DEVEM SE DIRIGIR AO PORTÃO 15

SEGUNDO ATO

A NOVA ORDEM DO CAOS

FASE 3: ADEQUAÇÃO À NOVA ORDEM FORJADA

CENA 1 – Plantão jornalístico 02 falando da nova Ordem

ÂNCORAS

Tantantantantantantantan-ran

Tantantantantantantantan-ran Tan-taaaaan

Caos urbano!  Segundo a CET, o trânsito nesta tarde é o pior já registrado desde a fundação da cidade, em 1.55X. As últimas informações são de que todas as vias ainda em uso estão completamente paradas.

A prefeitura aconselha aos motoristas que abandonem seus carros e dirijam-se imediatamente ao Muro de Contenção Humana.

Um buraco engoliu hoje pela manhã a Catedral da Sé, matando pelo menos cinco mil ratos e deixando inúmeros desaparecidos. As buscas por sobreviventes prosseguem, na esperança que a Fé e a Moral sejam resgatadas ainda com vida.

Mais Buracos! A prefeitura anunciou, em entrevista coletiva agora há pouco, um plano para a criação de 50 novos buracos. O projeto, que deve ficar pronto em uma semana, teria capacidade de abrigar 10 mil pessoas e seria a solução mais rápida e eficiente para resolver a alta na demanda de moradias provocado pelo recente Caos Urbano.

Emprego! A prefeitura anunciou hoje a criação de sete milhões de novas vagas, como parte do programa de remanejamento social. Os interessados aos postos devem comparecer nos próximos dias ao portão 5. Os selecionados receberão tevê a cabo e alimentação, além de outros benefícios.

CENA 2 – Contratação da classe média devidamente inserida

Entra o candidato. Vai até o círculo central. Carrega nas costas (como uma mochila) uma cadeira e, pendurada no pescoço, uma crachá com um número de identificação.  Coloca a cadeira no centro do círculo.

Em algum lugar, lê-se: “Você que entra, abandone aqui toda a sua esperança.” (pode ser um desses cartazes, ou uma projeção)

Ele fica um tempo parada, esperando que alguém chegue. Ao invés disso, uma voz metálica e distorcida fala com ela

VOZ

Nome, por gentileza

CANDIDATO

João.

VOZ

Classe social correspondente

CANDIDATO

Não compreendi, poderia repetir?

VOZ

Atrás do crachá, senhor…

CANDIDATO

(lendo)

Classe média indefinida aspirante a classe média devidamente remunerada. É isso?

VOZ

Possui todos os dedos das mãos?

Ele mostra as mãos, abertas

VOZ

E dos pés?

Ele está de sapatos. Hesita, pensando em tirá-los, e resolve que não.

CANDIDATO

Sim!

VOZ

Vamos estar verificando…

Antecedentes criminais?

CANDIDATO

Não!

VOZ

Vamos estar verificando…

Costuma fumar, beber, ingerir drogas lícitas ou ilícitas?

CANDIDATO

Não!

VOZ

Excelente. Vamos estar verificando…

Medicamentos também são drogas lícitas, senhor…

CANDIDATO

(ansioso)

Só para dormir, de vez em quando…

VOZ

Excelente…

(pausa)

Demonstre, em uma só frase, sua amplitude lingüística e multiplicidade de idiomas

CANDIDATO

Doze anos de experiência. Multilíngue. Yes, I can speak multiple languages. Um poquito de castellano, pero no mucho.

VOZ

Levante-se, por gentileza…

Ele levanta-se

VOZ

Por gentileza, pode tocar a ponta dos dedos dos pés com as pontas dos dedos das mãos?

Ele obedece

VOZ

Pode estar se sentando, senhor

Ele obedece

VOZ

Quais são as suas esperanças?

Pausa

CANDIDATO

Como?

VOZ

Esperanças, senhor!

CANDIDATO

Esperança?

VOZ

O senhor tem mais um minuto, senhor!

CANDIDATO

Um emprego!

VOZ

Por gentileza, marque sua opção. Escolha pelo número…

Opção 1 – Amigos da Casa Grande – servidores voluntários para os cidadãos dos condomínios série ouro – remuneração em moradia, alimentação freqüente e TV a cabo digital…

Ele toma nota, compenetrado

VOZ

Opção 2 – Amigos da Grande Obra – para voluntários pedreiros, marceneiros, ferreiros e demais necessários à construção da Nova Cidade – remuneração em moradia, alimentação freqüente reforçada e TV a cabo digital…

Opção 3 – Amigos da Segurança  –  policiais de elite voluntários para o sossego da nova cidade e seus cidadãos – remuneração em moradia, alimentação, aulas de kung fu e jiu jitsu e TV a cabo digital…

Opção 4 – Amigos da Garotada  –  artistas voluntários para o entretenimento dos novos cidadãos – remuneração em moradia, alimentação vegetariana, aulas de yoga e TV a cabo digital…

CANDIDATO

(interrompendo)

Esse!

VOZ

Por gentileza, senhor, faça uma palhaçada

CANDIDATO

Agora?

VOZ

Estamos verificando suas aptidões, senhor!

Longo constrangimento

Ele faz uma graça. Esforça-se muito, porque desse momento depende sua vida.

Silêncio.

Fica um tempo na mesma palhaçada, até que a voz retorna

VOZ

Vamos estar ligando, senhor!

CANDIDATO

Peraí, e agora?

VOZ

Vamos estar ligando, senhor!

CANDIDATO

Eu passei?

VOZ

Passe bem!

CENA 3 – Conflitos de amor da nova ordem

Um casal adormecido, abraçado na cama. Como Romeu e Julieta. A cena se passa como uma novela na TV.

Ela acorda, assustada.

JULIETA

Meu Deus, é o sol?

ROMEU

Ainda é noite…

JULIETA

O céu já está quase azul. Tem aquela tonalidade arroxeada da madrugada, mas ainda não está claro

ROMEU

Eu gosto dessa hora. A hora mágica

JULIETA

Eu gostava até agora. Hoje, ela traz agonia.

ROMEU

Não pensa assim

JULIETA

Mas é verdade. Todo dia, quando eu ainda acordava às quatro pra sair às cinco e entrar às sete, eu olhava para o céu, ainda escuro, e procurava alguma estrela. Era a minha recompensa por acordar cedo. Era a minha recompensa por acordar cedo. E eu pedia que a minha vida mudasse totalmente… A cor arroxeada no céu, que não é dia nem noite, um tempo que dura uns cinco minutos no nosso tempo, era o tempo que eu pensava que podia atravessar um portal, que nem esses de filme, para outra dimensão. Daí o sol ficava mais forte, as coisas ficavam claras e ficava claro que eu estava era sonhando.

Olha lá, o roxo já tá virando vermelho…

ROMEU

Vem cá!

JULIETA

Pra que?

ROMEU

Vem!

JULIETA

Hoje acaba tudo! Prefiro assim. Já já eles vêm me buscar.

ROMEU

Amiga da casa grande…

JULIETA

Era o único jeito. Se não aproveitar agora, vai sobrar sabe o que? (ri) Eu consegui uma posição ótima! Vai ser nesses de luxo, cheio de gente importante…

ROMEU

Você é importante!

Ela faz uma careta, como se não acreditasse

ROMEU

E linda.

JULIETA

Eu consegui lugar pra você. Em quatro ou cinco anos, a gente já teria o nosso espaço.

ROMEU

Isso não é garantido

JULIETA

Mas se a gente não tiver essa esperança, de que vale a vida agora?

ROMEU

Eu só posso ter esperança no que depende de mim. Esperança…Se nunca me deram nada, por que é agora que vão me dar? Por bom comportamento? Por servir bem?

Ela olha para ele, entristecida.

ROMEU

Vem aqui!

JULIETA

Pra que, pra doer mais?

ROMEU

Pra despedir… a última vez.

JULIETA

Por que você não vem junto?

ROMEU

Amanhã eles vêm me buscar. Tão precisando da gente

JULIETA

Eu preciso de você!

ROMEU

E a sociedade, onde fica?

JULIETA

E eu, onde fico?

ROMEU

Você fala como se eu tivesse escolha

JULIETA

E não tem?

ROMEU

Eles precisam de mim! Essa cidade está um caos! Ontem o comandante Marcos disse que…

JULIETA

Eu não quero saber desse primata!

ROMEU

Abaixa essa voz!

JULIETA

Vai mandar me prender também?

Silêncio

ROMEU

Sabe qual é o meu sonho, sabe? Que um dia eu não seja mais necessário. Que um dia, alguém chegue e diga: Romeu, Romeu, a sociedade agora consegue conviver sem você no meio. Agora há amor, Romeu…Agora você pode seguir o seu sonho…

JULIETA

Eu tô com medo…

ROMEU

Vai dar tudo certo.

JULIETA

Você poderia vir comigo

ROMEU

E servir de capacho?

JULIETA

É só por um tempo.  Confia em mim!

ROMEU

Em você eu confio…Mas a gente não decide nada. Então você quer que eu acredite no seu sonho, mas ele é tão incerto como um grão de areia no mar.

JULIETA

Sua escolha vai matar sua poesia

ROMEU

Sua escolha vai matar seu sonho

JULIETA

Daqui a pouco eles vem me pegar…o vermelho já está azulando…(pausa)Você ainda pode escolher

ROMEU

Você também

JULIETA

Eu não tenho escolha

ROMEU

Nem eu.

A cena congela, como se alguém tivesse apertado um pause.

CENA 4 – A vida é show – Prova do Caramujo

Abertura do programa A Vida É Show

APRESENTADOR

E você ainda pode votar! Eles devem ou não ficar juntos? Mas pense bem, porque se a resposta ganhadora for não, nossa produção se encarregará de separar os dois para todo o sempre, hein!

E você, votaria que sim ou não? Aguarde, no final do programa, o desfecho dessa love story!

E agora vamos para o nosso quadro “Você Decide”! Amigo ou buráquio? Vamos ver, aqui, ao vivo, a escolha de um legítimo representante da nossa população!  Palmas!

Entra o popular

POPULAR

Eu também quero ser um amigo!

APRESENTADOR

Calma, meu amigo, que para ser amigo a gente tem que provar, não é mesmo?

POPULAR

Mas eu já escolhi!

APRESENTADOR

Então agora vamos ver se a cidade escolherá você! É, Zé, pois é…Não basta querer, tem que provar! E por falar em prova, vamos a ela!

A PROVA DO CARAMUJO!

 

Apoteose no programa. Vinheta da prova

 

Telão: Imagens de desapropriações de moradias populares e ocupações

APRESENTADOR

Ele tem força de vontade. Ele se submeteu à prova. Agora vamos lá, Zé. Você pode levar tudo isso para casa e ainda morar na superfície! É só carregar tudo! Olha só que moleza! Mas Zé, não se esqueça! É tudo ou nada! Vamos lá, gente, comigo! (apita) TV 50 polegadas! Fogão inox de 6 bocas! Geladeira! Sofá três lugares! Liquidificador! Batedeira! Videogame! Aspirador de pó! DVD player! Supersom com quatro caixas e amplificador! Computador com um ano de internet grátis! Máquina de lavar! Máquina de secar! Máquina de passar! Máquina de costura! Zé! Não pára não Zé, só mais um pouco! Zé!

A cena pára.

NARRADOR / João

Ele teria conseguido, tirando força desses lugares secretos que nem a alma entende o caminho. Ele queria muito, mas naquela hora, a poucos passos de conseguir o seu sonho, a sua consciência lhe pregou uma peça. Talvez tenha sido pelo torpor do cansaço, porque naquele momento ele, foi tomado por uma onda ultrajante de dignidade que lhe tirou, num roubo súbito, sua vontade de seguir em frente.

A produção tira o popular apressadamente

APRESENTADOR

É, Zé, pois é…Quem diria…Vamos lá, auditório, todos! “Ah, que peninha!”

O sol nasce para todos, mas nem todos aproveitam…Por isso eu digo, amigo e amiga, não basta querer, tem que provar! E falando nisso, vamos trazer um exemplo se superação!

Elas poderiam ter sido vítimas do sistema… Poderiam ter desistido de tudo…Já não tinham quase nada, e ainda perderam seu local de trabalho, perderam seu ponto de referência, perderam seu ganha-pão…mas não perderam a esperança! Elas são puro alto-astral!

Dos prostíbulos clandestinos do largo carboidratos ao show biz, elas triunfaram. É por isso que elas estão no nosso quadro de hoje do programa A VIDA É SHOW!

(vinheta sonora para anunciar o nome do quadro)

 

 (apoteose de aplausos)

Com vocês, “As desalojadas”!!!

Entram as prostitutas do largo Carboidratos para o seu show.

AS DESALOJADAS

Quando era pequena

Imitava os gestos da mamãe

Me encostava na parede

Colocava um dos pés

E entortava o meu quadril para o lado da perna apoiada

E sorria

Aquele foi o meu primeiro gesto de profissão

Na adolescência sonhei em ser cantora

Não uma cantora qualquer

Mas uma de Cabaré

Como nos filmes antigos

Daqueles que as mulheres já vinham com a piteira na boca

Bonitas, como eram bonitas aquelas moças!!!!

Passava o dia inteiro imitando sei lá que língua e estralando os dedos

Era pernas cruzadas para cá

Era pernas cruzadas para lá

Sonho?

Sonho mesmo não tenho não

Perdi com algumas bordoadas que levei

Junto  da minha beleza e da vontade de tentar sair dessa vida

Hoje penso em criar minha filha diferente

Quando vejo algum gesto suspeito

Dou-lhe bordoada nas pernas

Chora pode chorar

Mas filha minha nessa vida não.

Ao fim da performance, o apresentador aproxima-se

APRESENTADOR

Minhas queridas, agora contem para nós de onde veio essa vontade de dar a volta por cima!

DESALOJADA 1

No comecinho, eu confesso que foi difícil, ver aquelas máquinas enormes chegando, a gente sendo escorraçada do largo,…

Fica um clima tenso. Todos sorriem amarelo. Uma corta a outra

DESALOJADA 2

Olha, amor, para quem já deu tanto o corpo, por que não dar um pouquinho a mais para a cidade, não é mesmo? Porque a gente atrai o que mentaliza, sabe? Quando chegou aquele monte de polícia botando a gente pra fora no tabefe, eu te falo, viu, eu quase que chorei. Mas foi quase. Jurei que nem a Scarlett: Jamais passarei por isso novamente!

DESALOJADA 3

Daí a gente se juntou, né, e a gente já tá ganhando mais do que em um mês de lida lá no largo! E a gente quer estar agradecendo também o apoio desse programa que tá fazendo com que todo mundo esteja conhecendo a gente e…

APRESENTADOR

(cortante)

É isso aí, minha gente! QUERER É PODER! E elas quiseram! Aliás, só é “sem” quem não pode. E que não pode… se SACODE!

A desalojada 1 ameaça a falar, e o apresentador a corta

APRESENTADOR

É isso aí, amigo sentado aí, buscando aquele astral! QUERER É PODER! E a cidade tá mudando, minha gente, tá mudando e dando oportunidade pra todo mundo mudar junto!

Vamos agora ao resultado final da love story. VOCÊ ACREDITA NO AMOR? SIM? NÃO? (suspense) Ah…Mas antes eu preciso aqui um apelo dos nossos administradores…

(muda o tom, ficando mais sério)

Gente, gente, gente…Futuro é coisa séria, gente! Nossos administradores estão dando duro para construir o nosso sonho. Sabe, aquele sonho que você pensava impossível? Aquele sonho não morreu, está sendo construído aqui e agora! E tem muita gente ajudando, é verdade, a cidade agradece a todos os voluntários mas…tem gente que ainda não entendeu a proposta, está com pressa, ficam aí se proclamando rebeldes…Então, vamos aprender com nossa História! (olha para a moça da produção, pedindo disfarçadamente a pauta)

MOÇA DA PRODUÇÃO

Mitologia grega!

APRESENTADOR

Pois é, pois é… Gente, os gregos, aquela civilização importante, fundadores da de-mo-cra-cia, olha só, eles entendiam da coisa… Desde aquela época os caras sabem que com destino certo não se brinca, gente, que a gente acaba queimado…Olha lá o Prometeu no que que deu, não é Dirceu? (ri da rima infame) Foi mexer com fogo…desobedeceu…se…ferrou! (ri de novo) Gente, gente, paciência que as coisas vão melhorar! Mas não fiquem gastando energia indo contra, porque, voltando lá na Grécia, se até o Édipo que era rei não conseguiu, imagine o plebeu! Acorda população! Não precisa reclamar que tem lugar pra todo mundo, e sem aperto! Pegue logo a sua parte porque migalha também é pão!

Recado dado, voltamos ao nosso casal! O que acontecerá com eles? E você, o que faria?

CENA 5 – Coreografia da Nova ordem

Coreografia trem – coro dos trabalhadores mascarados

Cena 6 – A História do trabalhador que construiu a própria desgraça.

(Entra Gonçalves, senta na cadeira e tenta falar. Como não consegue, chama o narrador).

NARRADOR

Senhoras e senhores, este é Gonçalves, um jovem empreendedor que construiu sua própria desgraça. (Põe chapéu no Gonçalves). Desde que se formou, Gonçalves tinha um sonho, que transformou em um projeto. Uma máquina que substituiria o trabalho de cem mil homens!! Uma revolução na engenharia civil. Um dia ele tomou coragem, e foi tentar a sorte na Desmonth Corporation, a maior empreendedora do ramo. Chegando lá, foi barrado. Dia após dia ele insistia, mas sem sucesso. Até que decidiu ficar na porta da empresa até ser recebido.

Foi então, que o Senhor Matarratos, dono da Desmonth, sabendo deste impertinente que não desistia, resolveu chamá-lo. Gonçalves não acreditou. Eufórico, mostrou imediatamente o seu projeto. A super máquina, o tatuzão, era impressionante, e o contrato foi fechado na hora. Durante meses, Gonçalves organizou a construção do tatuzão, ele era o orgulho da sua família.

Ao fim de dois meses de trabalho árduo, Gonçalves foi demitido, o seu projeto estava assinado pelo Sr. Matarratos.

Depois disso, Gonçalves se trancou em casa, tem medo de falar, pois acha que as pessoas vão roubar as suas frases.  Não quer ser visto, pois acha que seus gestos serão roubados. Dizem que ele possui uma dessas síndromes… Os vizinhos dizem que ele passa o dia cavando o chão com as mãos para encontrar a sua máquina embaixo da terra.

Entram todos, começando a coreografia da dança das cadeiras. Volta a música “cinema mudo”, como a da cena Wilson das Ervas

NARRADOR

por mais tocante que seja essa história, para a nova cidade ela não faz a menor diferença.

Tiram a cadeira de Gonçalvez, que sai do jogo.

CENA 7 – Coreografia Dança das cadeiras

O elenco continua o jogo de dança das cadeiras

Um a um, vão sendo eliminados.

Música. Partitura ao redor das cadeiras

A música pára. Um dos participantes fica sem cadeira.

VOZ

Concluídas as construções no setor D. Amigos da Grande obra agora sem função social específica devem se encaminhar ao portão C, acesso a conjunto habitacional buráquio número 478

O participante sai.

Música. Partitura ao redor das cadeiras

A música pára. Outro participante fica sem cadeira.

EMPREENDEDOR

(referindo-se a um conjunto de casas – morador: perdedor)

Então, vamos remover esse conjunto de amigos lá pro subterrâneo. Tão reclamando de espaço nos condomínios, fazer o que? Não interessa, já foi distribuído mas a gente redistribui, lá embaixo é mais fresquinho até. Aí, o senhor é meio gordinho, deve estar passando um calor, não? Lá vai ser mais gostoso, o senhor vai ver só!

 

O perdedor sai.

Música. Partitura ao redor das cadeiras

A música pára. Outro participante fica sem cadeira.

SECRETÁRIA

(referindo-se a outra mulher, a perdedora)

Senhora, seu nome não consta mais em nosso sistema. Me desculpe, senhora, mas eu não posso fazer nada. Nos buracos há outros sistemas disponíveis, senhora, vou estar transferindo. Não, senhora, não posso verificar de novo, porque agora o sistema caiu. Caiu o sistema, senhora!

Fica um ganhador. Um policial lhe tira a cadeira.

GANHADOR

Peraí, eu ganhei!

POLICIAL

Tem escritura?

Ganhador faz que não

POLICIAL

Sinto muito.

O Policial leva a cadeira. Ganhador tenta protestar

POLICIAL

Muro de contenção humana, à esquerda. Pegue a senha e dirija-se ao seu buraco correspondente.

TERCEIRO ATO

O LANÇAMENTO, O ESQUECIMENTO E AS FISSURAS

CENA 1 – Rebelião

 

Pessoas no buraco. A cada momento, chegam mais e mais pessoas. A situação é a cada minuto mais tensa. Nos buracos populosos há falta de espaço, comida, higiene. A situação chega ao limite e se inicia uma rebelião.

 

Imagens de rebeliões aparecem no telão.

CENA 2 – Conselho e Assessor

O assessor entra trazendo notícias da nova cidade para o conselho que está reunido no telão.

ASSESSOR

Com licença senhores. Temos problemas!

CONSELHO

Blablablabla…

ASSESSOR

As construções estão na fase de conclusão e os amigos da grande obra agora são desnecessários para a nova cidade. O que faremos com eles?

CONSELHO

Blábláblá buracos.

ASSESSOR

Não temos como realocar tanta gente. Não existem buracos menos populosos, estão todos lotados e sem comida.

CONSELHO

Blábláblá novas crateras.

ASSESSOR

Novas crateras? Mas a cidade virou um queijo suíço. Há risco de desabamentos!

CONSELHO

Blábláblá concreto.

ASSESSOR

O quê? Mas a população vai se revoltar com isso!

CONSELHO

(alterado)

Blábláblá Mídia!!!

ASSESSOR

Compreendi senhores. Vou solicitar um informe extraordinário com caráter de urgência que justifique este ato. Com licença.

O assessor sai e o conselho se transforma na mídia.

CENA 2 – Mídia

ÂNCORA

E atenção, atenção, ouvintes! Acaba de ser descoberta uma nova epidemia que ameaça nossa cidade. Em virtude disso, a Prefeitura determinou o fechamento de todas as entradas para os conjuntos habitacionais subterrâneos. As autoridades admitem que ainda se sabe muito pouco sobre esse vírus que causa a hiper-fotossensibilidade e que os acessos ficarão fechados indefinidamente, até que ele seja completamente erradicado. A Prefeitura pede à população que fique em suas casas para evitar a contaminação e que alertem a Saúde Pública em caso de suspeita de doentes. Mais informações a qualquer momento. Não há motivo para pânico, a situação está sobre controle. Mas para quem quiser saber mais sobre esse momento, o prefeito virá em rede pública, no horário nobre, para esclarecer a população.

CENA 3 – O Pronunciamento do Prefeito e o adeus oficial aos buráquios

O prefeito entra para o pronunciamento

Ou, no caso, pode ser também uma imagem em video, caso vocês realmente façam uso dessa linguagem.

PREFEITO

Caros amigos e cidadãos…Em honra da transparência de nosso governo é que venho comunicar a todos uma medida extraordinária e urgente que pode causar confusão e choque de opiniões. Por essa razão, estamos aqui para esclarecer os fatos.

(pausa)

Há muito tempo, as autoridades médicas nos alertam para um novo vírus que começou a se proliferar no interior dos conjuntos habitacionais subterrâneos. Não jogamos demasiada luz ao tema para não causar pânico desnecessário, mas agora a situação pede medidas urgentes…

(pausa)

Já tivemos cinco casos de morte. E antes que isso se converta em uma tragédia, temos que cuidar de nossos filhos, que apesar de se encontrarem abaixo da terra, não estão abaixo nas prioridades do nosso governo!

(pausa)

Esse vírus traz como enfermidade uma fotosensibilidade crônica. O menor contato com a luz do sol gera queimaduras irreversíveis e um alto grau de desidratação. Protetores solares são inúteis nesse caso. Já foram distribuídas apostilas e vários agentes sociais estão informando o perigo de se subir à superfície, mas ainda não é suficiente para deter a epidemia, pois nem todos acreditam na seriedade dos fatos…

(pausa)

É por isso que, em virtude do bem comum, teremos que tomar uma medida definitiva.

Conto com a compreensão de todos vocês. Boa noite.

Sons de obra e caminhões de cimento.

O elenco reúne-se no espaço cênico

 

NARRADOR 1

Mas certas coisas o prefeito não disse, porque não é de bom tom tornar público.

NARRADOR 2

Então, na calada da noite, a cidade foi invadida por uma imensidão de caminhões com cimento, gentilmente cedidos por uma conhecida amiga corporativa do estado.

NARRADOR 3

E antes que o sol pudesse fazer mais uma vítima, uma massa cinzenta devolveu ao solo a estabilidade perdida.

NARRADOR 4

Foram salvos os alicerces da Nova Civilização.

Apaga-se a luz. Começa a configuração para a cena dos fósforos

NARRADOR 5

No dia seguinte, ninguém, nem mesmo o mais humilde servidor comentou o fato. Não falaram nada, nem sobre o mau tempo, torcendo para que o próprio tempo fizesse dessa História uma lenda urbana.

NARRADOR 6

E um silêncio estranho de nada comentar tomou conta da nova cidade. E quase puderam ouvir, emergindo do solo, as últimas palavras de cada buráquio.

CENA 4 – Manifestos do fósforo

Cada ator-buráquio acende um fósforo e, no tempo da chama acesa, diz alguma coisa.

Ao final, deixa-se transcorrer um tempo, para que as palavras reverberem

 

Depois de um tempo, a cigana aparece, iluminada por um lampião.

CIGANA

Mas a vida, ferida, irrompe o concreto…

A força, tremenda, contida na terra

Retoma pra si o espaço perdido.

tal qual como rio outrora aterrado,

que um dia transborda do ventre encerrado

e flui, novamente, o Destino querido.

O elenco conduz a platéia para fora do espaço cênico

Do lado de fora, cortam uma fita, como se inaugurassem a cidade. Mas em completo silêncio

ATOR/ATRIZ

Essa história não é fixa.

Mas, por enquanto, esta é a cidade que temos.

FIM

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