a.

Projeto Mulheril, Caixa Cultural, 2006

 Cena escrita a partir da leitura de Conflito, peça de Maria Jacintha

Sinopse:

Monólogo de uma mulher cansada de ser um rótulo, passando por várias épocas de modelos femininos. Texto curto

 

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Atriz entra em cena. Percebe a platéia em silêncio, enquanto come, calmamente, uma banana. No tempo que julgar conveniente, começa a falar.

A.

E eu nunca pensei que pudesse ficar tão calada.

Volto no tempo, do tempo. Do tempo passado, anos vinte, quarenta? Nem sei… Da época em que contávamos as estrelas. Da época em que havia estrelas. Agora contamos estrias, sob os olhos severos do espelho alheio. Se antes eu pensava serem as estrelas vigilantes, não sabem vocês o que são perto das antenas de hoje. Mas voltemos ao tempo.

Eu nunca pensei que pudesse ficar tão calada. É que era demais o peso de falar tanto, de carregar a moral dos novos tempos, a pedra filosofal da nova ordem feminina. Era demais, a castração, a morbidez sádica das pernas cruzadas. Eu cruzava as pernas, aos sete anos, era para sentir desejo, apertava as coxas sem saber que recém-descobrira o pecado, o gozo do pecado original. Naquela época, tentaram calar, mas não conseguiram. Esperneei contra as pernas cruzadas, a favor do desejo, a favor da lua e dos lunáticos que anunciavam o amor.

Por tudo isso, tornei-me mártir, uma bandeira, não a dos bons costumes, mas a do auto-sacrifício. Eu, que contava estrelas e por elas era vigiada, eu, que em outra época fui queimada justamente por saber ler estrelas, eu agora tomava o papel da heroína subversiva. In-fa-lí-vel!

Na época, bravo! Era dura a moral, e contra ela fui implacável. Não restou um só traço de contradição, NEM UM PARA CONTAR A HISTÓRIA, OU PARA CONSTAR NA HISTÓRIA! Porque não eram tempos de humanidade nem para mim, a heroína a serviço do amor, contra a ditadura das pernas cruzadas…

(abre as pernas. Tira da roupa um isqueiro. Acende o isqueiro no meio das pernas. Fica assim um tempo. Depois, com a outra mão, faz como se acendesse uma espécie de bomba, que joga longe)

Pssssssssssssssssssssssssssss…

(vê a bomba atingir o alvo)

Coquetel molotov. Depois foi assim. Pode vir quente que eu estou fervendo, tempestade, era muito ódio, sabe, ódio? O amor construído, o amor conquistado, cantado pela boca do rei…

(canta um trecho de Roberto Carlos. Tem uma crise de riso nervoso)

 Era muito amor! Chegou, finalmente, a liberdade pra amar sem culpa!

(joga outra bomba de coquetel molotov. Começa a dançar, ainda rindo)

 Podia-se amar enlouquecidamente, sem AIDS, sem camisinha, sem pai, sem mãe, sem vergonha, sem teto, sem hora, sem destino, como se tudo fosse acabar no dia seguinte! Como…quarta-feira de cinzas?

 (olha uma cena aterrorizante ao longe)

 Nããããããããão!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!

 (aproxima-se do lugar para onde olhava, ajoelhando-se, velando um corpo).

 Era essa, nossa liberdade. Amor sem culpa, intenso, de curta validade. Amor de toda vida e pouca vida, arrancada do nada, a tiro. Amor que morria feito indigente, amor estampado no jornal como delinqüente que rouba carro. Amor arrancado do peito por bala, mártir da convicção de quem mais uma vez discordava.

 Amor-sacrifício. Dado em sacrifício pela causa velada de uma América que marchava, às dívidas, pra ordem e para o progresso. E o amor, enterrado feito delinqüente comum, morto à queima-roupa no meio-fio.

 Eu nunca pensei que pudesse agüentar calada. Não sei se o eletrochoque travava a língua ou se o nó na garganta era tanto que espremia a palavra lá dentro, apesar da dor.

 A denúncia, hipócrita, veio de casa. Padrasto. Não ficou contente em fuder com minha mãe, resolveu fazer o mesmo com a família toda, apontou aquele dedo podre e passou toda a ficha dos “delinqüentes” que profanavam a moral do seu lar.

 Minha mãe ficou muda de resignação.

 Eu fiquei muda de ódio, de indignação.

 E eu nunca pensei que pudesse ficar tanto tempo calada…Calaram meu momento em que de novo eu estampava na minha existência o sacrifício de heroína.

Mas eu já estava cansada.

 Retirei-me ao deserto, como quem pede mudança. E passarinho na muda não canta, por isso calei. Hibernei no dourado da areia, encoberta pelo silêncio do tempo até um outro depois.

 Acordei como se a partir daquele dia eu já não fosse mais, tomada por uma amnésia de tudo o que antes era considerado objetivo. Havia dormido bem? Não sei. Talvez fora abduzida no meio do ato do sono, levada pra algum mundo distante, doutrinada, destrinchada e mandada de volta também com amnésia disso tudo.

 Tomar um copo d´água passou a ter mais sentido que me lançar à correria do tempo – pelo menos era um dos poucos atos para gerar vida, ainda que fosse a minha própria. Assim, naquele dia, tomei cinco copos como quem procura uma resposta ou quer de volta a ignorância. Mas a água não perdoa, não responde, ela só flui, impassível, para onde tem que ir.

Então fiquei ali, no sol, esperando ter sede novamente.

(fica um tempo em silêncio, acompanhando com o olhar alguém que vem ao longe e se aproxima)

Então passava um e falava: você não vai fazer nada?

(pausa)

Eu nunca pensei que pudesse ficar tanto tempo calada. Mas estava cansada de repetir a história.

Então, me apontaram uma casa.

Entrei numa sala escura, toda cheia de portas. Em cada porta, uma estrela e um nome. Eu logo vi que os nomes eram só disfarces de humanidade. Letras que encobriam rótulos. Era o artigo definido feminino “A” seguido fosse do que fosse, também definindo tudo.

 Do tipo boa, pulavam milhares. A boa tímida, a boa eficiente, a boa modesta, a boa revolucionária, a boa inocente, a boa caliente, a boa sufriente. Dois finais.

1)    A boa se fode

     2) A recompensa da bondade. (sorri)

Da má, as propostas eram mais divertidas. Especialmente quando elas riam.

(ri como uma típica vilã de novela)

Olha, te falo que estive tentada a encarar uma dessas, mas pra falar a verdade, fiquei com preguiça.

(fica um tempo em silêncio)

Fiquei assim, (mais silêncio). Procurei se não tinha uma porta sem estrela nem nome, só com a água. Afinal de contas, a água também é feminina.

“Onde já se viu, água com sentimentos? Água não tem nem objetivo, quanto mais conflito e intenção!”

É…re-pres-são! Mentira que eu poderia escolher qualquer uma!

Não dava mais! Eu ia querer mudar de nome no meio da fala. Gilda ia virar Ermenegilda, depois Marizete, depois Maria Clara. Eu estava enjoada de tanta retidão. Do artigo definido seguido de definição. Eu queria ser todas e nenhuma, eu queria explodir os limites de uma só, eu queria ser a namorada, a amada, a odiada, a guerreira, a covarde, a mãe, a filha, o pai até, talvez, o príncipe e a princesa, o arco e a flecha, eu não queria ser a mártir de nada, a causa do sofrimento nem a que sofre, eu não quero ser a reprimida nem a libertadora, eu não quero ser castrada nem castradora, eu não quero ser a inocente, a puta, a invejosa, a invejada, a moderna, a arcaica, o arquétipo, a desmoralizada, a feminista, atriz de revista, a pervertida, a desejada, a execrada, a heroína, a cocaína, a exilada, a pioneira, a delirante, a viajante, a indecisa, a imprecisa, a recalcada, não quero ser nem o verso ou reverso, o certo ou avesso. Eu não quero mais ser!

(pára, de repente. Encara a platéia, num novo silêncio)

Eu nunca pensei que eu pudesse ficar tanto tempo…

(respira fundo. Olha para a platéia com ternura)

Outro dia, ouvi: A vida é boa.

Eu só quero é estar aqui.  Posso?

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