vereda da promessa

A flor da pele é feita por fios brotados de fendas conta casos de dessassossego desmedidas deseducadas vermelhas pétalas desamparadas em terra seca e bruta  surgidas em pés de quem caminha em desertos (crendo, ainda, nos oásis gramados mesmo que em outras eras) Arremedo de flor cheirosa, caminho traçado por espinhos arando aridez Esperança de rosa de terra fofa e cuidada, única promessa de quem escala tantas pontas.      ...

a sombra de todos os medos

– Mãe, tô com medo. – Do que, Chico? – Da folha!   Foram dias assim. Não adiantava perguntar que folha era aquela. Muito menos dizer que folha não mete medo, não se faz isso com o imaginário de uma criança. Eu, que tinha medo até do triângulo das bermudas, medo de que meu pai fosse sequestrado por extraterrestres, medo de areia movediça, medo de trocar de dentes, medo de Gremlin, medo do Nada (da História sem Fim), de cão raivoso no mês de agosto, de todas as doenças que o Fantástico anunciava, medo de tanta coisa absurda que não caberia aqui dizer, era a última pessoa com direitos a pedir por um mínino de explicação do por que o Francisco tinha medo de algo tão insignificante como uma folha. Mas e aí, o que fazer? Comecei a perceber que...

há que se cuidar

Há que se cuidar do broto pra que a vida nos dê flor e fruto. Três brotinhos: esse foi o templo que a vida me concedeu nos últimos tempos. Parei. Tive que parar tanta coisa. Tive que começar tanta coisa… A cada um que chegava, rever minha própria chegança. Porque há que se tomar tempo pro tempo de cria. Há também que se ter alma lúcida. Há que muita coisa. Mas também há o que está além do “há que”. Para além do “avental todo sujo de ovo”, comerciais de mamãe-bebê, cartilhas de mãe moderna, todo e qualquer modelo do que ser mãe significa e se ressignifica ao longo de todos os tempos, essa parte da música do Milton trouxe, de repente, de forma linda e sintética, a noção do que é esse ofício: um imenso laboratório alquímico. Ou, se preferir, a figueira debaixo...

gabrielices

(Gabri chorando) – Que foi, filho? – Eu só tenho duas mãos! – E daí? Todo mundo tem duas mãos. – Mas eu quero fazer cinco coisas! E eu não tenho cinco mãos! (…)   – Mãe, pega um suco? (pego) – Não vai falar obrigado? – Obrigado… (1 segundo depois) Não vai falar de nada?

A princesa e o pescador

Lenora, uma princesa encantada, linda e formosa, já havia recebido a visita de inúmeros pretendentes. Os mais corajosos traziam-lhe objetos exóticos de lugares distantes, os mais líricos criavam versos de amor incomparáveis, aqueles mais impetuosos lhe ofereciam jóias jamais sonhadas, com pedras puríssimas trazidas de minas profundas. Porém tudo para ela era inútil. Os presentes que conseguiam entrar pelos portões do palácio transformavam-se em pedra bruta, da mais comum, na melhor das hipóteses. Palavras amáveis e lindas canções soavam como ofensas e guinchos, provocando um terror jamais visto, sobrepondo-se ao esplendor da princesa. Era essa a maldição do palácio, lançada há muitos e muitos anos por um velho feiticeiro que se sentira desprezado por Lenora:...

poeminha de auto-retrato

Nunca teórica; (me falta Apolo) Apoteótica. Até poética (na face clara) Também apática (em dia escuro)   (criado em brincadeira com a turma do CLIPE 2016 – centro de formação do escritor da Casa das Rosas)

dilemas libertos

– Pedro, você prefere o frio ou o calor? – Quando tá frio, eu gosto de ficar num lugar quentinho, quando tá calor, num lugar fresquinho. – Eu tô perguntando se você prefere o tempo frio ou o tempo quente. – No frio gosto de lugar quentinho, no calor de lugar fresquinho, ué. (Entendi. Demorou, mas entendi.)

<3

“Acho que o Pedro disse alguma coisa pra Júlia no intervalo que ela não gostou. Ela foi para a sala de aula chorando, disse que não queria fazer aula de educação física, que a cabeça doía muito. Eles não quiseram contar nada, mas é melhor perguntar”. (relato da professora). O que poderia ter acontecido? No carro, depuramos o fato, o Dja e eu. Ele chorou. Que foi, Pedro? Você falou mesmo alguma coisa pra ela? “A dor de cabeça entrou nela, mãe”. E foi isso mesmo, depois eu soube. Ela teve uma dor súbita, e ele estava tentando ampará-la, abraçando-a. Não foi nenhuma palavra doída. Foi a cabeça. Ufa. E ele ainda complementou: “Eu não poderia nunca deixar a Júlia triste”. Morri de ternura....

Carta aos meninos num quase-inverno de 2016

Meus queridos, O país ferve. O mundo ferve. As vitórias democráticas conquistadas quando sua mãe tinha a idade de vocês foram novamente ameaçadas. Os livros de História estão se revirando do avesso, com páginas sendo reescritas por múltiplos pontos de vista, com folhas futuras arranhando previsões apaixonadas. É um tempo bem estranho, bem louco, talvez até lúdico, e se comento essas coisas é para explicar a vocês porque às vezes eu, outras seu pai, anda pelos cantos coçando a cabeça. Porque a gente é teimoso pra caramba. A gente tem todos os aparatos possíveis para se enquadrar no “sistema”: inteligência, formação em instituição superior reconhecida, informação, ímpeto, talento. Mas a gente preferiu usar tudo isso pra fazer outras coisas, daquelas que colaboram...