poeminha de auto-retrato

Nunca teórica; (me falta Apolo) Apoteótica. Até poética (na face clara) Também apática (em dia escuro)   (criado em brincadeira com a turma do CLIPE 2016 – centro de formação do escritor da Casa das Rosas)

dilemas libertos

– Pedro, você prefere o frio ou o calor? – Quando tá frio, eu gosto de ficar num lugar quentinho, quando tá calor, num lugar fresquinho. – Eu tô perguntando se você prefere o tempo frio ou o tempo quente. – No frio gosto de lugar quentinho, no calor de lugar fresquinho, ué. (Entendi. Demorou, mas entendi.)

<3

“Acho que o Pedro disse alguma coisa pra Júlia no intervalo que ela não gostou. Ela foi para a sala de aula chorando, disse que não queria fazer aula de educação física, que a cabeça doía muito. Eles não quiseram contar nada, mas é melhor perguntar”. (relato da professora). O que poderia ter acontecido? No carro, depuramos o fato, o Dja e eu. Ele chorou. Que foi, Pedro? Você falou mesmo alguma coisa pra ela? “A dor de cabeça entrou nela, mãe”. E foi isso mesmo, depois eu soube. Ela teve uma dor súbita, e ele estava tentando ampará-la, abraçando-a. Não foi nenhuma palavra doída. Foi a cabeça. Ufa. E ele ainda complementou: “Eu não poderia nunca deixar a Júlia triste”. Morri de ternura....

Carta aos meninos num quase-inverno de 2016

Meus queridos, O país ferve. O mundo ferve. As vitórias democráticas conquistadas quando sua mãe tinha a idade de vocês foram novamente ameaçadas. Os livros de História estão se revirando do avesso, com páginas sendo reescritas por múltiplos pontos de vista, com folhas futuras arranhando previsões apaixonadas. É um tempo bem estranho, bem louco, talvez até lúdico, e se comento essas coisas é para explicar a vocês porque às vezes eu, outras seu pai, anda pelos cantos coçando a cabeça. Porque a gente é teimoso pra caramba. A gente tem todos os aparatos possíveis para se enquadrar no “sistema”: inteligência, formação em instituição superior reconhecida, informação, ímpeto, talento. Mas a gente preferiu usar tudo isso pra fazer outras coisas, daquelas que colaboram...

(di)verso além das palavras

Papai, o Pedro tá estragado. Eu só tomei conhecimento dessa fala algum tempo depois. Se tivesse ouvido na hora, não sei o que faria, acho que seria quebrada em mil pedaços. Ainda bem, ela foi endereçada ao pai, um consertador nato de coisas. Você tinha quase cinco anos. Até aquela data, a gente esperou. Coincidíamos, seu pai e eu, sobre a mesma terra firme: não queríamos forçar sua natureza. Sempre soube que não havia algo a se corrigir, e sim a se ampliar. Nunca senti algo errado, era só diferente. Ele ainda não fala? – alguns deixavam escapar, como se fala fosse coisa uniforme. As respostas variavam de acordo com meu estado de espírito: sim, mas a primeira língua dele é a música – era a resposta que mais me ressoava a verdade. Porém, depois desse...

prova de cavaleiro: o coração gentil

Saiu da escola com coração abalado. Forçando uma brincadeira, havia machucado uma das meninas da classe, pegando no seu braço com força além da conta. Ficou roxo, ela reclamou, mostrando que doía. Ele, aprendendo a duras penas o limite do corpo alheio, na volta pra casa, ficou amuado. – Tá tudo bem? – Não. – O que aconteceu? – Tô com vergonha. – Conta que passa. (Tentou falar, mas a fala não saía) – Tô com vergonha. – Conta se quiser, então. (Silêncio no carro. Agonia era tanta que dava até pra apalpar no ar. Passaram-se duas músicas e uma eternidade) – Agora eu quero falar. (A história saiu doída) E eu, orgulhosa da vergonha dele. Da culpa não, culpa não presta pra nada. Mas vergonha na cara sim. Sentir o sentir do...

na gira dos cavalinhos

Para cada filho, um coração. Mas cada peito que o contém pede um corpo, então sou pelo menos três com cara de mãe. Também sou grata por ter esse privilégio, o de poder ser presente nessa primeira infância (uma opção consciente), mas louca por conseguir coordenar os tantos outros eus que pedem passagem.   A casa, exigente, me grita pelo menos mais nove personas exclusivas, o que desobedeço com prazer. Mas com gosto eu cedo ao posto de jardineira, porque amo cultivar fadas, e elas me pedem locais mágicos e floridos. Nas artes culinárias faço o que tem pra hoje (apesar da herança genética favorável, esqueci de passar nessa fila de talentos) e a alegria de encher a casa de pisca-piscas depende de uma arrumação prévia, coisa que nem sempre tô a fim (e quando faço,...

a concreta poesia dos dois anos

Ó só, mãe! Ó só! Aguatéa! Aguatéa! (sim, ele repete tudo umas oito vezes) Aguatéa! Aguatéa! Aguatéa! (Água-terra: Francisco vendo, maravilhado, da janela do carro em viagem, as curvas de um rio)

pequeno sacerdote das notas

Você ensaiou essa música durante um tempão. A flauta, quase uma extensão dos seus braços, do seu fôlego, trazia diariamente à vida o Natal Nordestino, canção escolhida para a apresentação de final da ano. No dia, todas as crianças a postos. Uma mão de coruja segurava uma câmera trêmula, buscando sua imagem no meio do coral. Logo vi: você estava posicionado atrás de uma criança mais alta – não por querer se esconder, mas por não se importar em ser visto. O espaço era apertado, o calor era muito a os professores davam seu máximo. No meio da apresentação, no momento em que as flautas fariam sua parte, alguém te colocou à frente. Para minha surpresa, você ficou completamente de costas. Logo, o mistério se revelou: de costas para a exibição, mas de frente para a...